terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uns versos mais de Rui Tinoco

às vezes olhas para mim,
às vezes prendes-me com a alma.
nem dás conta.
e eu fico assim às voltas
com a tua ausência, escrevendo
a palavra nua com o teu nome.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

"Tu que desgraçaste", de Czesław Miłosz

Tu que um homem humilde desgraçaste,
rindo-te da sua desgraça,
tu que cercado por um bando de palhaços,
o bem com o mal misturaste.

Embora, perante ti, todos se inclinassem
atribuindo-te virtude e sabedoria,
e medalhas de ouro em tua homenagem cunhassem,
contentes por terem vivido mais um dia.

Não estejas seguro. O poeta lembrar-se-á.
Podes matá-lo, outro nascerá.
Actos e conversas assentes por escrito ficarão.

Melhor te seria a alvorada invernosa,
a corda e o ramo curvado pelo peso.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Outro poema de Rui Tinoco

à medida que envelheceu
o poeta foi cortando versos:
achava que o silêncio
dizia de melhor maneira.
a certa altura saiu do
texto, caminhou
por uma ampla álea.
tornou-se minúsculo.
sentou-se lá no fundo
precisamente aí onde
o último verso ainda
estava por terminar.

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"Esperança", de Czesław Miłosz

Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.

Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.

(in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Para ti

(Não estava previsto. Poder-se-á dizer que aconteceu por acidente - qualquer coisa como: "Oh, não era isto que eu queria dizer..." Uma confusão. Taquicardia, medo. Aconteceu por acaso. Ainda bem que aconteceu).

domingo, 13 de novembro de 2011

"Os livros", de Manuel António Pina

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

Outro terceto de Aurélio Porto

Bailando ao vento
dispersa novembro suas folhas
e nossos passos firmes.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poema de Rui Tinoco

devia ter-me levantado para escrever
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Terceto de Aurélio Porto (com uns dias de atraso)

Espreita o sol por entre os automóveis.
Calmos, os dois cavalos soltos
sob as nuvens de outubro.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

A pedra azul ou o ónix que encontro em Chapultepec
é um princípio de fogo sem princípio nem fim.
Entre as mãos voará como uma ave de prata
ou a bandeira de vento desta pátria de luz.

A luz na minha boca é uma pedra sagrada,
comove-me o coração em Chapultepec.
O coração é uma pedra em brasa
nas insígnias do sol e da serpente.

O olhar é o fogo neste encontro infinito,
o rosto foi tocado pela luz do início.
Caminho e ardo nesta pedra sagrada
quando encontro o teu rosto em Chapultepec.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Os livros", de João Pedro Messender

Os livros
convergem
para um centro
Magma
Lugar
de infinita
sede

(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)

domingo, 30 de outubro de 2011

Poema de João Pedro Messender

Pousa as armas do Outono
e caminha ao longo da margem.
Um golpe de névoa
rouba-lhe
a ordem do dia. Por que não
esbanjar a sua ruína
partilhar as árvores descarnadas
sacudir a harmonia do mundo?

(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

"Soneto", de Violante do Céu

(Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura, que fala a outra dama, que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos, e se assentou a um túmulo, que tinha este epitáfio, que leu curiosamente)

Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.

Considera, que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.

Considera, que a morte rigorosa
Não respeita beleza, nem juízo,
E que sendo tão certa é duvidosa:

Admite desse túmulo o aviso,
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes, que o teu fim é tão preciso.

(in Antologia da poesia do período barroco; ed. Moraes Editora, 1982)