segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Para ti

(Não estava previsto. Poder-se-á dizer que aconteceu por acidente - qualquer coisa como: "Oh, não era isto que eu queria dizer..." Uma confusão. Taquicardia, medo. Aconteceu por acaso. Ainda bem que aconteceu).

domingo, 13 de novembro de 2011

"Os livros", de Manuel António Pina

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu” entre nós e nós?

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

Outro terceto de Aurélio Porto

Bailando ao vento
dispersa novembro suas folhas
e nossos passos firmes.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Poema de Rui Tinoco

devia ter-me levantado para escrever
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...

(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Terceto de Aurélio Porto (com uns dias de atraso)

Espreita o sol por entre os automóveis.
Calmos, os dois cavalos soltos
sob as nuvens de outubro.

(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

A pedra azul ou o ónix que encontro em Chapultepec
é um princípio de fogo sem princípio nem fim.
Entre as mãos voará como uma ave de prata
ou a bandeira de vento desta pátria de luz.

A luz na minha boca é uma pedra sagrada,
comove-me o coração em Chapultepec.
O coração é uma pedra em brasa
nas insígnias do sol e da serpente.

O olhar é o fogo neste encontro infinito,
o rosto foi tocado pela luz do início.
Caminho e ardo nesta pedra sagrada
quando encontro o teu rosto em Chapultepec.

(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Os livros", de João Pedro Messender

Os livros
convergem
para um centro
Magma
Lugar
de infinita
sede

(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)

domingo, 30 de outubro de 2011

Poema de João Pedro Messender

Pousa as armas do Outono
e caminha ao longo da margem.
Um golpe de névoa
rouba-lhe
a ordem do dia. Por que não
esbanjar a sua ruína
partilhar as árvores descarnadas
sacudir a harmonia do mundo?

(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

"Soneto", de Violante do Céu

(Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura, que fala a outra dama, que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos, e se assentou a um túmulo, que tinha este epitáfio, que leu curiosamente)

Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.

Considera, que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.

Considera, que a morte rigorosa
Não respeita beleza, nem juízo,
E que sendo tão certa é duvidosa:

Admite desse túmulo o aviso,
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes, que o teu fim é tão preciso.

(in Antologia da poesia do período barroco; ed. Moraes Editora, 1982)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

"T. de telefone", de Pedro Tiago

entende esta verdade,
coberta de musgo e metáforas: a literatura
já não é nada. dizem-me que não posso
escrever isto (isto), porque estou inserido na
contemporaneidade que, de tão aberta, literaria-
mente, me fecha todas as mãos e todos os braços.
e não posso usar metáforas nem lirismo nem posso
repetir os modernistas, porque o modernismo
já passou. e dizem-me que se quero ser lido
tenho de fazer assim, mas nunca entendo muito
bem o que seja isso. vou continuando a ver
velhos a dar milho e pão aos pombos, nos
parques e jardins públicos, ao sol e à chuva,
e isso chega-me. a literatura pode já não ser
nada, mas também, verdade seja dita,
não a pretendo nisto.

(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)

sábado, 15 de outubro de 2011

"Uma conversa de almofada", de Pedro Tiago

revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
«não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.

(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)