sexta-feira, 11 de novembro de 2011
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Poema de Rui Tinoco
devia ter-me levantado para escrever
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...
aquele verso. a manhã ofereceu-me
apenas uma página em branco.
é verdade que o autor traz consigo
dois ou três temas para a vida
toda? que alimento tão escasso...
levanto-me e vou à janela:
se conseguir tocar um desses temas
com a minha alma, talvez
alcance um lugar qualquer para
observar o mundo...
(in O Segundo Aceno; ed. Sempre-em-pé, 2011)
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Terceto de Aurélio Porto (com uns dias de atraso)
Espreita o sol por entre os automóveis.
Calmos, os dois cavalos soltos
sob as nuvens de outubro.
Calmos, os dois cavalos soltos
sob as nuvens de outubro.
(in Safra do Regresso; ed. Sempre-em-pé, 2011)
domingo, 6 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Poema de Amadeu Baptista
A pedra azul ou o ónix que encontro em Chapultepec
é um princípio de fogo sem princípio nem fim.
Entre as mãos voará como uma ave de prata
ou a bandeira de vento desta pátria de luz.
A luz na minha boca é uma pedra sagrada,
comove-me o coração em Chapultepec.
O coração é uma pedra em brasa
nas insígnias do sol e da serpente.
O olhar é o fogo neste encontro infinito,
o rosto foi tocado pela luz do início.
Caminho e ardo nesta pedra sagrada
quando encontro o teu rosto em Chapultepec.
é um princípio de fogo sem princípio nem fim.
Entre as mãos voará como uma ave de prata
ou a bandeira de vento desta pátria de luz.
A luz na minha boca é uma pedra sagrada,
comove-me o coração em Chapultepec.
O coração é uma pedra em brasa
nas insígnias do sol e da serpente.
O olhar é o fogo neste encontro infinito,
o rosto foi tocado pela luz do início.
Caminho e ardo nesta pedra sagrada
quando encontro o teu rosto em Chapultepec.
(in Arte do Regresso; ed. Campo das Letras, 1999)
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
"Os livros", de João Pedro Messender
Os livros
convergem
para um centro
Magma
Lugar
de infinita
sede
convergem
para um centro
Magma
Lugar
de infinita
sede
(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)
domingo, 30 de outubro de 2011
Poema de João Pedro Messender
Pousa as armas do Outono
e caminha ao longo da margem.
Um golpe de névoa
rouba-lhe
a ordem do dia. Por que não
esbanjar a sua ruína
partilhar as árvores descarnadas
sacudir a harmonia do mundo?
e caminha ao longo da margem.
Um golpe de névoa
rouba-lhe
a ordem do dia. Por que não
esbanjar a sua ruína
partilhar as árvores descarnadas
sacudir a harmonia do mundo?
(in A Cidade Incurável; ed. Caminho, 1999)
terça-feira, 25 de outubro de 2011
"Soneto", de Violante do Céu
(Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura, que fala a outra dama, que presumida entrou em uma igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos, e se assentou a um túmulo, que tinha este epitáfio, que leu curiosamente)
Ó tu, que com enganos divertida
Vives do que hás-de ser tão descuidada,
Aprende aqui lições de escarmentada,
Ostentarás acções de prevenida.
Considera, que em terra convertida
Jaz aqui a beleza mais louvada,
E que tudo o da vida é pó, é nada,
E que menos que nada a tua vida.
Considera, que a morte rigorosa
Não respeita beleza, nem juízo,
E que sendo tão certa é duvidosa:
Admite desse túmulo o aviso,
E vive do teu fim mais cuidadosa,
Pois sabes, que o teu fim é tão preciso.
(in Antologia da poesia do período barroco; ed. Moraes Editora, 1982)
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
"T. de telefone", de Pedro Tiago
entende esta verdade,
coberta de musgo e metáforas: a literatura
já não é nada. dizem-me que não posso
escrever isto (isto), porque estou inserido na
contemporaneidade que, de tão aberta, literaria-
mente, me fecha todas as mãos e todos os braços.
e não posso usar metáforas nem lirismo nem posso
repetir os modernistas, porque o modernismo
já passou. e dizem-me que se quero ser lido
tenho de fazer assim, mas nunca entendo muito
bem o que seja isso. vou continuando a ver
velhos a dar milho e pão aos pombos, nos
parques e jardins públicos, ao sol e à chuva,
e isso chega-me. a literatura pode já não ser
nada, mas também, verdade seja dita,
não a pretendo nisto.
coberta de musgo e metáforas: a literatura
já não é nada. dizem-me que não posso
escrever isto (isto), porque estou inserido na
contemporaneidade que, de tão aberta, literaria-
mente, me fecha todas as mãos e todos os braços.
e não posso usar metáforas nem lirismo nem posso
repetir os modernistas, porque o modernismo
já passou. e dizem-me que se quero ser lido
tenho de fazer assim, mas nunca entendo muito
bem o que seja isso. vou continuando a ver
velhos a dar milho e pão aos pombos, nos
parques e jardins públicos, ao sol e à chuva,
e isso chega-me. a literatura pode já não ser
nada, mas também, verdade seja dita,
não a pretendo nisto.
(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)
domingo, 16 de outubro de 2011
(Of its own kind)
Glenn Jones - Of Its Own Kind from Thrill Jockey Records on Vimeo.
Glenn Jones interpretando "Of its own kind"
sábado, 15 de outubro de 2011
"Uma conversa de almofada", de Pedro Tiago
revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
«não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
«não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.
(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
(Entre parênteses)
(Entre parênteses podemos questionar tudo. E a verdade é que tenho questionado o sentido deste poemapossivel, tão sem mérito e, há que admiti-lo, tão estático. Nestes três anos de existência tem vindo a crescer, crescer, mas sem qualquer evolução aparente - a não ser, talvez, o acréscimo de novos autores. É legítimo, mais uma vez, pensar em dar-lhe um ponto final. Este fac-simile de leituras feitas, assumido desde o início como inglório (e porventura inútil) esforço, não serve ninguém. Os livros de poesia, já o escrevemos, se acabam por ser um luxo, são suficientes por si; e ainda que os leia, e, à minha maneira os tenha vindo a publicitar, dou por mim a pensar se os ditos livros não serão "suficientes por si" mesmo sem leitores. No outro dia li um curto texto sobre a inutilidade de escrever poemas; o autor [suponho que a si mesmo] dizia que era essa inutilidade que os tornava importantes, e auto-justificado estava o ato de os escrever. Bem, não sendo um teórico da poética, apenas me interrogo: a importância da poesia não acusará, por sua vez, a inutilidade deste blogue?)
domingo, 9 de outubro de 2011
"Previsão menos musical de um futuro", de Pedro Tiago
será possível um dia que os bancos de jardim
sejam levados para longe e nas praias muitos
corpos antigos desagúem, vindos de rios e de barcos
naufragados. será o tempo inteiro, completo, e na
televisão dir-se-á que os bancos faliram e que por
todo o mundo se sentem os efeitos do crash. será possível
que seja essa a altura em que a poesia fale
do crash e da falência dos bancos, no cinema passarão
fitas paradas de vida selvagem e durante duas horas
tentar-se-á incutir o amor pelo desabrochar de uma
planta. será o tempo de animais abandonados,
de papéis amarelos e vento nas ruas. um tempo
oblíquo, de muitos profetas que falam sem saber
que palavras usar.
sejam levados para longe e nas praias muitos
corpos antigos desagúem, vindos de rios e de barcos
naufragados. será o tempo inteiro, completo, e na
televisão dir-se-á que os bancos faliram e que por
todo o mundo se sentem os efeitos do crash. será possível
que seja essa a altura em que a poesia fale
do crash e da falência dos bancos, no cinema passarão
fitas paradas de vida selvagem e durante duas horas
tentar-se-á incutir o amor pelo desabrochar de uma
planta. será o tempo de animais abandonados,
de papéis amarelos e vento nas ruas. um tempo
oblíquo, de muitos profetas que falam sem saber
que palavras usar.
(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
"Psicanálise da escrita", de Ana Luísa Amaral
Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si
Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou
Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si
Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou
Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga
(in Vozes)
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