sábado, 15 de outubro de 2011

"Uma conversa de almofada", de Pedro Tiago

revoltavas-te, as tuas costas dobradas,
inclinadas para a frente, os seios tocando
nas pernas enquanto procuravas uma meia
debaixo da cama e franzias as sobrancelhas
numa cara de criança que acorda tarde:
«não percebo porque é que a poesia
tem de ser tão absurda». e eu respondia-te
que tem de ser assim, porque o mundo
já está cheio de coisas concretas e práticas
que não fazem sentido nenhum.

(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

(Entre parênteses)

(Entre parênteses podemos questionar tudo. E a verdade é que tenho questionado o sentido deste poemapossivel, tão sem mérito e, há que admiti-lo, tão estático. Nestes três anos de existência tem vindo a crescer, crescer, mas sem qualquer evolução aparente - a não ser, talvez, o acréscimo de novos autores. É legítimo, mais uma vez, pensar em dar-lhe um ponto final. Este fac-simile de leituras feitas, assumido desde o início como inglório (e porventura inútil) esforço, não serve ninguém. Os livros de poesia, já o escrevemos, se acabam por ser um luxo, são suficientes por si; e ainda que os leia, e, à minha maneira os tenha vindo a publicitar, dou por mim a pensar se os ditos livros não serão "suficientes por si" mesmo sem leitores. No outro dia li um curto texto sobre a inutilidade de escrever poemas; o autor [suponho que a si mesmo] dizia que era essa inutilidade que os tornava importantes, e auto-justificado estava o ato de os escrever. Bem, não sendo um teórico da poética, apenas me interrogo: a importância da poesia não acusará, por sua vez, a inutilidade deste blogue?)

domingo, 9 de outubro de 2011

"Previsão menos musical de um futuro", de Pedro Tiago

será possível um dia que os bancos de jardim
sejam levados para longe e nas praias muitos
corpos antigos desagúem, vindos de rios e de barcos
naufragados. será o tempo inteiro, completo, e na
televisão dir-se-á que os bancos faliram e que por
todo o mundo se sentem os efeitos do crash. será possível
que seja essa a altura em que a poesia fale
do crash e da falência dos bancos, no cinema passarão
fitas paradas de vida selvagem e durante duas horas
tentar-se-á incutir o amor pelo desabrochar de uma
planta. será o tempo de animais abandonados,
de papéis amarelos e vento nas ruas. um tempo
oblíquo, de muitos profetas que falam sem saber
que palavras usar.

(in O Comportamento das Paisagens; ed. Artefacto, 2011)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Psicanálise da escrita", de Ana Luísa Amaral

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga

(in Vozes)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

(Ao despertar)

(Um Álvaro de Campos envelhecido lamenta-se por não mais escrever as extensas odes de outros tempos. Pensava nisto ontem à noite, enquanto tentava adormecer, e fazia paralelos impossíveis com a minha vida dissemelhante. Hoje, com outra intensidade de luz, ser-me-ia bastante um punhado certeiro de versos).

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"poema 2", de Ana Luísa Amaral

No meu braço
Cansado
O seu corpo macio
Adormecido

Um quarto do tamanho
Do meu corpo
- E o quarto
Preenchido

(poema integrante de "Outras Metamorfoses da Memória", in Vozes)

domingo, 2 de outubro de 2011

"Fenda", de Carlos Lopes Pires

Por alguma coisa estamos aqui,
subindo e descendo,
fazendo e fazendo,

de todo o lado carregando
o musgo e as pedras
para o poço.

e se alguma coisa tenho
para dar-te

ela está dentro de mim
e não a encontro
senão
na fenda

do meu coração.

(in Onde)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

"Papagaio de papel", de Tiago Patrício

Uma flor mineral
sobreposta ao Sol

Um rio de papel
desagua no vento

Uma criança lança
um arco-íris ao mar

Uma bandeira
de um país feito de ar

(in O Livro das Aves)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Outro poema de Amadeu Baptista

Sou cúmplice porque viajo,
amo,
gravo o teu nome no coração da árvore,
as minhas raízes enlaçam-se nas tuas,
são a lua e o anjo
no êxtase do voo.

(in Arte do Regresso)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

(Um poema mais de Emily Dickinson)

Surgeons must be very careful
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit — Life!

* * *

Cirurgiões, tende cuidado
Com essa faca tão fina!
Sob o golpe tão subtil
Treme o culpado - é a Vida!

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

O mundo dez anos depois de aqui estarmos
será todas as coisas que agora sonhamos
no inefável mistério do desespero da noite.
O mundo daqui a dez anos será redondo
e as árvores possuirão o infinito azul
que perdemos na despojada sombra do caminho
que nos persegue.
Em dez anos o mundo há-de ser continuamente o mesmo,
mas o sol e a lua aproximarão a terra
da íntima ressonância do mundo
e todos os enigmas serão perceptíveis
na fascinada viagem dos teus olhos
com destino às coisas inexoráveis
e avassaladoramente eternas.

(in Arte do Regresso)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Livro de História", de Charles Simic

Um miúdo encontrou as suas páginas soltas
Numa rua movimentada
Deixou de jogar à bola
Para correr atrás delas.

Elas escaparam-se das suas mãos
Voando como borboletas.
Apenas pode entrever
Alguns nomes, uma data.

Nos arredores o vento
Fê-las subir.
Foram arrastadas sobre o depósito de pneus usados
Em direcção ao rio cinzento,

Onde afogam os gatinhos -
E a barcaça desliza,
Aquela que crismaram Vitória
De onde um aleijado acena.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Tapeçaria", de Charles Simic

(Um dos poemas mais interessantes que li nos últimos tempos. Opto por apenas publicar a excelente tradução de José Alberto Oliveira).

Está pendurada do céu até à terra.
Há nela árvores, cidades, rios,
porquinhos e luas. Num canto
a neve cai sobre uma carga de cavalaria,
noutro mulheres plantam arroz.

Também se pode ver:
um frango arrastado por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumo,
uma mulher de mau olhado cuspindo para um balde de leite.

O que está por trás dela?
- Espaço, um enorme espaço vazio.

E quem está agora a falar?
- Um homem que adormeceu com o chapéu posto.

O que acontece quando acordar?
- Ele irá a uma barbearia.
Raparão a sua barba, nariz, orelhas e cabelo,
para que se pareça com todos os outros.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)