(Um Álvaro de Campos envelhecido lamenta-se por não mais escrever as extensas odes de outros tempos. Pensava nisto ontem à noite, enquanto tentava adormecer, e fazia paralelos impossíveis com a minha vida dissemelhante. Hoje, com outra intensidade de luz, ser-me-ia bastante um punhado certeiro de versos).
terça-feira, 4 de outubro de 2011
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
"poema 2", de Ana Luísa Amaral
No meu braço
Cansado
O seu corpo macio
Adormecido
Um quarto do tamanho
Do meu corpo
- E o quarto
Preenchido
Cansado
O seu corpo macio
Adormecido
Um quarto do tamanho
Do meu corpo
- E o quarto
Preenchido
(poema integrante de "Outras Metamorfoses da Memória", in Vozes)
domingo, 2 de outubro de 2011
"Fenda", de Carlos Lopes Pires
Por alguma coisa estamos aqui,
subindo e descendo,
fazendo e fazendo,
de todo o lado carregando
o musgo e as pedras
para o poço.
e se alguma coisa tenho
para dar-te
ela está dentro de mim
e não a encontro
senão
na fenda
do meu coração.
subindo e descendo,
fazendo e fazendo,
de todo o lado carregando
o musgo e as pedras
para o poço.
e se alguma coisa tenho
para dar-te
ela está dentro de mim
e não a encontro
senão
na fenda
do meu coração.
(in Onde)
terça-feira, 27 de setembro de 2011
"Papagaio de papel", de Tiago Patrício
Uma flor mineral
sobreposta ao Sol
Um rio de papel
desagua no vento
Uma criança lança
um arco-íris ao mar
Uma bandeira
de um país feito de ar
sobreposta ao Sol
Um rio de papel
desagua no vento
Uma criança lança
um arco-íris ao mar
Uma bandeira
de um país feito de ar
(in O Livro das Aves)
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Outro poema de Amadeu Baptista
Sou cúmplice porque viajo,
amo,
gravo o teu nome no coração da árvore,
as minhas raízes enlaçam-se nas tuas,
são a lua e o anjo
no êxtase do voo.
amo,
gravo o teu nome no coração da árvore,
as minhas raízes enlaçam-se nas tuas,
são a lua e o anjo
no êxtase do voo.
(in Arte do Regresso)
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
(Um poema mais de Emily Dickinson)
Surgeons must be very careful
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit — Life!
Cirurgiões, tende cuidado
Com essa faca tão fina!
Sob o golpe tão subtil
Treme o culpado - é a Vida!
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit — Life!
* * *
Cirurgiões, tende cuidado
Com essa faca tão fina!
Sob o golpe tão subtil
Treme o culpado - é a Vida!
(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Poema de Amadeu Baptista
O mundo dez anos depois de aqui estarmos
será todas as coisas que agora sonhamos
no inefável mistério do desespero da noite.
O mundo daqui a dez anos será redondo
e as árvores possuirão o infinito azul
que perdemos na despojada sombra do caminho
que nos persegue.
Em dez anos o mundo há-de ser continuamente o mesmo,
mas o sol e a lua aproximarão a terra
da íntima ressonância do mundo
e todos os enigmas serão perceptíveis
na fascinada viagem dos teus olhos
com destino às coisas inexoráveis
e avassaladoramente eternas.
será todas as coisas que agora sonhamos
no inefável mistério do desespero da noite.
O mundo daqui a dez anos será redondo
e as árvores possuirão o infinito azul
que perdemos na despojada sombra do caminho
que nos persegue.
Em dez anos o mundo há-de ser continuamente o mesmo,
mas o sol e a lua aproximarão a terra
da íntima ressonância do mundo
e todos os enigmas serão perceptíveis
na fascinada viagem dos teus olhos
com destino às coisas inexoráveis
e avassaladoramente eternas.
(in Arte do Regresso)
domingo, 18 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
"Livro de História", de Charles Simic
Um miúdo encontrou as suas páginas soltas
Numa rua movimentada
Deixou de jogar à bola
Para correr atrás delas.
Elas escaparam-se das suas mãos
Voando como borboletas.
Apenas pode entrever
Alguns nomes, uma data.
Nos arredores o vento
Fê-las subir.
Foram arrastadas sobre o depósito de pneus usados
Em direcção ao rio cinzento,
Onde afogam os gatinhos -
E a barcaça desliza,
Aquela que crismaram Vitória
De onde um aleijado acena.
Numa rua movimentada
Deixou de jogar à bola
Para correr atrás delas.
Elas escaparam-se das suas mãos
Voando como borboletas.
Apenas pode entrever
Alguns nomes, uma data.
Nos arredores o vento
Fê-las subir.
Foram arrastadas sobre o depósito de pneus usados
Em direcção ao rio cinzento,
Onde afogam os gatinhos -
E a barcaça desliza,
Aquela que crismaram Vitória
De onde um aleijado acena.
(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
"Tapeçaria", de Charles Simic
(Um dos poemas mais interessantes que li nos últimos tempos. Opto por apenas publicar a excelente tradução de José Alberto Oliveira).
Está pendurada do céu até à terra.
Há nela árvores, cidades, rios,
porquinhos e luas. Num canto
a neve cai sobre uma carga de cavalaria,
noutro mulheres plantam arroz.
Também se pode ver:
um frango arrastado por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumo,
uma mulher de mau olhado cuspindo para um balde de leite.
O que está por trás dela?
- Espaço, um enorme espaço vazio.
E quem está agora a falar?
- Um homem que adormeceu com o chapéu posto.
O que acontece quando acordar?
- Ele irá a uma barbearia.
Raparão a sua barba, nariz, orelhas e cabelo,
para que se pareça com todos os outros.
(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)
terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
(O poema apropriado - de Emily Dickinson)
Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography.
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb -
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.
Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia -
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir -
Cratera que eu possa ver -
Há um Vesúvio cá em casa.
And South America
I judge from my Geography.
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb -
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.
* * *
Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia -
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir -
Cratera que eu possa ver -
Há um Vesúvio cá em casa.
(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)
domingo, 11 de setembro de 2011
Novamente, Emily Dickinson
I'm Nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!
How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
To an admiring Bog!
Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também - tu não és - Ninguém?
Somos um par - nada digas!
Banir-nos-iam - não sabes?
Mas que horrível - ser-se - Alguém!
Uma Rã que o dia todo -
Coaxa em público o nome
Para quem a admira - o Lodo.
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!
How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
To an admiring Bog!
* * *
Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também - tu não és - Ninguém?
Somos um par - nada digas!
Banir-nos-iam - não sabes?
Mas que horrível - ser-se - Alguém!
Uma Rã que o dia todo -
Coaxa em público o nome
Para quem a admira - o Lodo.
(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Dois poemas de Emily Dickinson (e duas traduções de Jorge de Sena)
I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.
Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.
Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.
O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz -
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.
* * *
Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.
* * *
Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.
* * *
O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz -
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.
(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)
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