quarta-feira, 21 de setembro de 2011

(Um poema mais de Emily Dickinson)

Surgeons must be very careful
When they take the knife!
Underneath their fine incisions
Stirs the Culprit — Life!

* * *

Cirurgiões, tende cuidado
Com essa faca tão fina!
Sob o golpe tão subtil
Treme o culpado - é a Vida!

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Poema de Amadeu Baptista

O mundo dez anos depois de aqui estarmos
será todas as coisas que agora sonhamos
no inefável mistério do desespero da noite.
O mundo daqui a dez anos será redondo
e as árvores possuirão o infinito azul
que perdemos na despojada sombra do caminho
que nos persegue.
Em dez anos o mundo há-de ser continuamente o mesmo,
mas o sol e a lua aproximarão a terra
da íntima ressonância do mundo
e todos os enigmas serão perceptíveis
na fascinada viagem dos teus olhos
com destino às coisas inexoráveis
e avassaladoramente eternas.

(in Arte do Regresso)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Livro de História", de Charles Simic

Um miúdo encontrou as suas páginas soltas
Numa rua movimentada
Deixou de jogar à bola
Para correr atrás delas.

Elas escaparam-se das suas mãos
Voando como borboletas.
Apenas pode entrever
Alguns nomes, uma data.

Nos arredores o vento
Fê-las subir.
Foram arrastadas sobre o depósito de pneus usados
Em direcção ao rio cinzento,

Onde afogam os gatinhos -
E a barcaça desliza,
Aquela que crismaram Vitória
De onde um aleijado acena.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Tapeçaria", de Charles Simic

(Um dos poemas mais interessantes que li nos últimos tempos. Opto por apenas publicar a excelente tradução de José Alberto Oliveira).

Está pendurada do céu até à terra.
Há nela árvores, cidades, rios,
porquinhos e luas. Num canto
a neve cai sobre uma carga de cavalaria,
noutro mulheres plantam arroz.

Também se pode ver:
um frango arrastado por uma raposa,
um casal nu na sua noite de núpcias,
uma coluna de fumo,
uma mulher de mau olhado cuspindo para um balde de leite.

O que está por trás dela?
- Espaço, um enorme espaço vazio.

E quem está agora a falar?
- Um homem que adormeceu com o chapéu posto.

O que acontece quando acordar?
- Ele irá a uma barbearia.
Raparão a sua barba, nariz, orelhas e cabelo,
para que se pareça com todos os outros.

(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores; trad. José Alberto Oliveira)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

(O poema apropriado - de Emily Dickinson)

Volcanoes be in Sicily
And South America
I judge from my Geography.
Volcanoes nearer here
A Lava step at any time
Am I inclined to climb -
A Crater I may contemplate
Vesuvius at Home.

* * *

Os vulcões são na Sicília
E na América do Sul.
Diz-mo a minha geografia -
Vulcões mais perto daqui,
Encostas de Lava que eu
Queira inclinar-me a subir -
Cratera que eu possa ver -
Há um Vesúvio cá em casa.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

domingo, 11 de setembro de 2011

Novamente, Emily Dickinson

I'm Nobody! Who are you?
Are you - Nobody - Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise - you know!

How dreary - to be - Somebody!
How public - like a Frog -
To tell one's name - the livelong June -
To an admiring Bog!

* * *

Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também - tu não és - Ninguém?
Somos um par - nada digas!
Banir-nos-iam - não sabes?

Mas que horrível - ser-se - Alguém!
Uma Rã que o dia todo -
Coaxa em público o nome
Para quem a admira - o Lodo.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dois poemas de Emily Dickinson (e duas traduções de Jorge de Sena)

I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.

* * *

Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu Vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.

* * *

Silence is all we dread.
There's Ransom in a Voice -
But Silence is Infinity.
Himself have not a face.

* * *

O Silêncio é o que tememos.
Há um Resgate na Voz -
Mas Silêncio é Infinidade.
Não tem sequer uma Face.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Poema de Dora Ribeiro

no teu corpo descanso
todas as minhas dúvidas
nele encontro certezas definitivas
e
escuto falar
o meu próprio corpo

(in O poeta não existe)

domingo, 4 de setembro de 2011

Quatro versos de Emily Dickinson

Between My Country - and the Others -
There is a Sea -
But Flowers - negotiate between us -
As Ministry.

* * *

Entre o meu País - e os Outros -
Há um Mar -
Mas Flores - negoceiam entre nós -
Como embaixadas.

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Poema de Emily Dickinson

Afraid? Of whom am I afraid?
Not Death - for who is He?
The Porter of my Father's Lodge
As much abasheth me.

Of Life? 'Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or more existences -
At Deity decree -

Of Resurrection? Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!

* * *

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte - quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências -
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil
Mais me valera abdicar!

(in 80 Poemas de Emily Dickinson; trad. Jorge de Sena)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

(Hoje)

(Hoje o poemapossivel não publica quaisquer versos, mas se o fizesse, seriam versos de amor. A razão? - mas será necessária uma razão para se divulgar um poema de amor? A título meramente hipotético, digamos que hoje (ainda que não mais do que nos outros dias) sentimos vontade de expressar (através do tal poema que não publicamos, mas que seguramente seria mui amoroso - e belo, muito belo...) o que sentimos. Mas que coisa?... E há a memória daqueles versos, tantas vezes citados, repetidos: "E quando ele entreabre os lábios para beijar...". Estas palavras, como esses versos que não publico (e que gostaria de ter escrito, sem que o talento chegue para tal), claro está, só podiam ser para ti - não hipoteticamente).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Poema de Dora Ribeira

para ti

um beijo
pode durar
o tempo do mundo
quando
o silêncio
toma
sorrateiro
o seu lugar
e apaga o resto

(in O poeta não existe)

domingo, 14 de agosto de 2011

"Carícia divina", de Rosa Alice Branco

Cordeiro do Senhor nunca queiras escravo.
A hóstia branca que levamos à boca
é a mesma lua cheia que ilumina
o meu corpo a deslizar no teu.
Porque deus é amor e nós fiéis.
Porque nos fez com uma carícia
assim te acaricio e me cobres
de felicidade pela noite dentro.
Bendito seja quem assim ama.
Livrai-nos Senhor de todos os cordeiros
e dai-nos um ao outro cada dia.

(in Gado do Senhor)