terça-feira, 19 de julho de 2011

"Verdes Anos", de Pedro Tamen

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

quinta-feira, 14 de julho de 2011

(Rabih Abou-Khalil e Ricardo Ribeiro)


Rabih Abou-Khalil (oud) e Ricardo Ribeiro (voz), interpretando "Como um rio" (do álbum «Em Português» do músico libanês) na Gala de Declaração Official das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo (2009)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Outro poema de Dora Ribeiro

o poeta não existe

fora a vulgaridade se amontoa em histórias originais

o poeta não existe

coisa do nada
inimigo dos vizinhos
e de todos os desejos com nome

ele sabe que inexiste
por isso frequenta a poesia

(in o poeta não existe)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Poema de Dora Ribeiro

a memória é vigarista pela manhã
quando os sentidos transitam inquietos
e o rosto
sentado em gestos e sonos
acomoda-se às coisas
e se deixa levar pela imaginação

(in o poeta não existe)

terça-feira, 5 de julho de 2011

"Estes lugares", de Jorge Gomes Miranda


Estes lugares permanecerão
muito depois de o homem ter desaparecido:
Castro Laboreiro, Serra da Arrábida,
Monsaraz e as ilhas dos Açores.
Apesar da inclemência do vento,
da devastação das máquinas
e da delapidante indústria do turismo,
estes lugares permanecerão
no tempo.
Já se encontravam aqui: sílabas
de um livro escrito numa língua
que fomos deixando de compreender.
Podemos ir, extinguir-se a nossa voz
na sombra dos séculos,
estes lugares permanecerão:
sementes
ou coros inextinguíveis
de um relâmpago.

(in A Hora Perdida)

domingo, 3 de julho de 2011

Poema de Rui Caeiro

Um sinaleiro invisível manda parar o trânsito
há uma pausa brutal no bulício da cidade
Soa a campainha da porta, entras furtiva-
mente, sorris acanhada e logo começas
a abandonar sapatos e a despir a roupa em gestos
sacudidos. Grande é a importância que me dás
Por momentos tudo vais trocar pelas minhas mãos

(in O Quarto Azul e outros poemas)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

(Water Dances)


Cena de "O Quarto do Filho", obra-prima do realizador Nanni Moretti (2001).

(Longe da poesia)

(Os últimos dias têm sido pobres em leituras poéticas; o poemapossivel, por consequência, tem conhecido dias mais silenciosos. Vejo nas livrarias os livros que vão sendo publicados, folheio-os, leio alguns versos ou mesmo uns quantos poemas, mas nunca os trago para casa. Numa estante, algures, ainda tenho uns quantos livros por abrir; à cabeceira, talvez uma meia dúzia por terminar. Longe da poesia, vou respirando).

segunda-feira, 13 de junho de 2011

123º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa


(No dia do 123º aniversário de Fernando Pessoa, a Google incluiu uma imagem - a partir da pintura de Almada Negreiros - no seu motor de busca).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Versos do "Tao te Ching"

Num mundo de acordo com o Tao,
os cavalos fornecem estrume para os campos.
Num mundo sem o Tao,
os cavalos de guerra vivem junto das cidades.

O maior erro é desejar sem fim
e não saber o que basta.
Grande erro é o desejo de acumular.

Assim, saber refrear-te
é ter sempre o bastante.

(in Tao Te Ching. O livro do caminho e da sabedoria)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"Retrato", de Manuel Machado

Este é o meu rosto e esta é a minha alma. Lede:
São uns olhos de tédio e uma boca de sede...
O resto... Nada... Vida... Coisas... Já se sabe...
Tanta estroinice, paixonetas... Nada grave.
Um pouco de loucura, um grão de poesia,
uma gota do vinho da melancolia...
Vícios? Todos. Nenhum... Nunca joguei, - não minto:
não gozo quanto ganho nem o perdido sinto.
Bebo, pra não negar minha terra, Sevilha,
meia dúzia de copos, mas só de manzanilla.
As mulheres..., sem ser um D. João - sou sincero! -,
tenho uma que me quer e outra a quem eu quero.

Acuso-me de não amar senão só vagamente
uma porção de coisas que encantam toda a gente...
A agilidade, o tino, a graça e a destreza,
mais que a vontade, a força e a grandeza...
Minha elegância é buscada, rebuscada. Asseguro
que antes o chic e o toureiro que o helénico e puro.
Um lampejo de sol e um riso em seu momento
prefiro à lua com seu langor nevoento.
Meio cigano e meio parisino - diz o vulgo -,
com Montmartre e com a Macarena comungo...
E, antes que um tal poeta, meu desejo primeiro
era ter sido um bom bandarilheiro.

É tarde... Ando à pressa. E o meu riso rasgado
é alegre, e não nego que estou muito apressado.

(in Alguns Cantares; trad. José Bento)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

"Adelfos", de Manuel Machado

Eu sou como essas gentes que à minha terra vieram
- sou da estirpe moura, velha amiga do Sol -,
que tudo o que ganharam tudo logo perderam.
Tenho a alma de nardo do árabe espanhol.

Morreu minha vontade numa noite de lua
em que era muito belo não pensar nem querer...
Meu ideal é deitar-me, sem ilusão nenhuma...
De quando em quando, um beijo e um nome de mulher.

Em minha alma, irmã da tarde, não há contornos...
e a rosa simbólica de meu único amor
é uma flor que nasce em terras ignoradas
e que não possui forma, nem aroma, nem cor.

Beijos, - mas não os dar! Glória... - a que me devem!
Que tudo como brisa comigo venha ter!
Que as ondas me tragam e as ondas me levem,
e que jamais me forcem o caminho a escolher!

Ambição!, não a tenho. Amor!, nunca o senti.
Jamais ardi em fogo de fé ou gratidão.
Um vago anseio de arte eu tive... mas perdi.
Não adoro a virtude, nem me seduz devassidão.

Alta aristocracia tenho afirmado em tudo.
Nunca se ganham, herdam-se, elegância e brasão...
Mas o lema da casa, divisa de meu escudo,
é uma vaga nuvem que eclipsa um sol vão.

Nada vos peço. Não vos amo nem odeio. Com deixar-me,
o que faço por vós por mim fazer podeis...
Que a vida se dê ao esforço de matar-me,
que não me dou por mim ao esforço de viver!...

Morreu minha vontade numa noite de lua
em que era muito belo não pensar nem querer...
De quando em quando um beijo, sem ilusão nenhuma.
O generoso beijo que não vou devolver!

(in Alguns Cantares; trad. José Bento)

domingo, 29 de maio de 2011

"Dormes", de Mia Couto

Dormes.
Não há no mundo senão teu rosto.

O céu sob o tecto
espera comigo que despertes.

O meu único relógio
é a sombra imóvel no chão do quarto.

A curva da terra
em tua pálpebra desenhada:
no teu sono me embalas.

Dormes-me.

(in Tradutor de Chuvas)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Poema de «Te Quiero», de Carlos Lopes Pires

há muitos anos
que busco uma explicação
nos livros

nos olhos dos animais
nas pessoas que passam

no sentido que deve haver
em tudo o que se move

e até na chuva
e nas mãos que tocam a claridade
dos dias mais secretos

mas só tu és
a minha explicação

(in Te Quiero)