terça-feira, 17 de maio de 2011

"Azimuto a minha barca", de Pedro Tamen

Azimuto a minha barca
e o porto é onde já estou.
Esta chuva que me encharca
é a que nunca pingou.

Olho pra trás desasado
das asas que nunca tive.
Não há mudança de estado
na descida do declive.

Pedro que sou, reduzo
o sapato em que me meto
a moído parafuso
e a desgosto secreto.

Desalimento a certeza,
aperto a chave ao sorriso,
lavo a loiça, ponho a mesa,
falo faceto, agonizo.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

domingo, 15 de maio de 2011

"Flores", de Mia Couto

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.

(in Tradutor de Chuvas)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

"Nesta cadeira me sento", de Pedro Tamen

Nesta cadeira me sento,
é nela que me apresento,
mas menos do que me ausento,
tento, lamento, avelhento,
aqui me invento e rebento;
passo cordura de unguento
e alimento o alento
da vida de sono e pão.

Desta cadeira prossigo
para um outro nó pascigo,
já sem perigo nem abrigo,
amigo como inimigo,
com meu já perdido umbigo
de só nascer por castigo:
ali de vez eu te irrigo,
cintilante coração.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

domingo, 8 de maio de 2011

(Videotape)

(Para nós...)

Radiohead interpretando "Videotape", ao vivo em Tóquio (2008)

sábado, 7 de maio de 2011

"Deslição de Anatomia", de Mia Couto

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no corpo humano,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!
Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

(in Tradutor de Chuvas)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

"No mesmo sítio, a pedra", de Fernando Echevarría

No mesmo sítio, a pedra
perde o lugar.
E fica
à brisa, devagar,
e ao desamparo.
Mas quando a sombra passa nos teus lábios
a ordem volta rigorosa. A pedra
regressa funda a si.
E um rio corre
o movimento e o rumor da terra.

(in Obra Inacabada)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Soneto "Descalça de viver, andava sempre", de Fernando Echevarría

Descalça de viver, andava sempre.
Enchia a rua quando não passava.
Mas, se passava, desfazia o tempo
e apagava a rua, os homens e as lágrimas.

Nem ela própria já vivia dentro
de si. A roupa que levava
tinha uma cor de triste e pensamento
que não se sente e não se vê. E nada

dela se via que não fosse um vento.
Nem um silvo ou perfume a denunciava.
Sabia-se, de certo, que vivia

porque o dia, a certas horas se quedava
pronto, parado, como não sendo dia.
Ela, descalça de viver, passava...

(in Obra Inacabada)

domingo, 1 de maio de 2011

"Do amor", de Carlos Lopes Pires

Jamais um rio
consome mais que as suas margens.
Mas do amor,
quem dizer pode
as margens de cada rio?

(in A fuga das cidades. Os ensinamentos)

sábado, 30 de abril de 2011

"Dos pássaros", de Carlos Lopes Pires

Anda comigo ver os pássaros que vão pelas tardes
a conquistar o ar. Não trabalham nem fazem eiras
para descansar o outono ou arrefecer as chuvas.
Mas têm um certo saber quase perfeito,
quase nada,

e tão silêncio.

(in A fuga das cidades. Os ensinamentos)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

"Seios e anseios", de Mia Couto

As vezes que morri
boca derramada entre os teus seios,
todas essas vezes
não me deram luto
porque, de mim, eu em ti nascia.

Todos esses abismos,
meu amor,
não me deram regresso.

Depois de ti,
não há caminhos.

Porque eu nasci
antes de haver vida,
depois de tu chegares.

(in Tradutor de Chuvas)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Cores de parto", de Mia Couto

(O título do novo livro de Mia Couto apropria-se ao dia de hoje)


O que eu vi,
à nascença, foi o céu.

No rasgão da retina,
a desatada luz: o meu segundo oceano.

Aprendi a ser cego
antes de, em linha e cor,
o mundo se revelar.

O que depois vi,
ainda sem saber que via,
foram as mãos.

Parteiros gestos
me ensinaram quanto,
das mãos,
a vida inteira vamos nascendo.

As mãos foram,
assim, o meu segundo ventre.

Luz e mãos
moldaram a impossível fronteira
entre oceano e ventre.

Luz e mãos
me consolaram
da incurável solidão de ter nascido.

(in Tradutor de Chuvas)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Dos avisos", de Carlos Lopes Pires

Cansaram-se de avisar e, um dia,
inesperadamente,
os poetas fugiram. Sabemos agora
que os poetas não se fecham nem prendem.
Matámos alguns e ficámos com os seus olhos grandes
a olhar sérios para nós. Mas os poetas nunca morrem,
pois fica sempre uma palavra ou outra
solta pelo chão a sangrar.

(in A fuga das cidades. Os ensinamentos)

terça-feira, 19 de abril de 2011

"Dos sinais", de Carlos Lopes Pires

(Poema lido e publicado em Tomar; a AJ lendo um livro aqui ao lado)

Expulsaram os pássaros da nossa rua.
Primeiro trouxeram máquinas escavadoras
e nuvens de pó,
depois chegaram carros bem vestidos
de onde saíam homens com papéis
e mãos vazias.
De uma ponta à outra da rua
serraram as árvores
que nos indicavam as sucessivas estações
dos nossos dias.
Como reconheceremos agora o outono?
Como saberemos da chegada dos sinais
se já nem os pássaros têm ramos

onde pousar as canções?

(in A fuga das cidades. Os ensinamentos)