Anda comigo ver os pássaros que vão pelas tardes a conquistar o ar. Não trabalham nem fazem eiras para descansar o outono ou arrefecer as chuvas. Mas têm um certo saber quase perfeito, quase nada,
Cansaram-se de avisar e, um dia, inesperadamente, os poetas fugiram. Sabemos agora que os poetas não se fecham nem prendem. Matámos alguns e ficámos com os seus olhos grandes a olhar sérios para nós. Mas os poetas nunca morrem, pois fica sempre uma palavra ou outra solta pelo chão a sangrar.
(Poema lido e publicado em Tomar; a AJ lendo um livro aqui ao lado)
Expulsaram os pássaros da nossa rua. Primeiro trouxeram máquinas escavadoras e nuvens de pó, depois chegaram carros bem vestidos de onde saíam homens com papéis e mãos vazias. De uma ponta à outra da rua serraram as árvores que nos indicavam as sucessivas estações dos nossos dias. Como reconheceremos agora o outono? Como saberemos da chegada dos sinais se já nem os pássaros têm ramos
Estar vivo é abrir uma gaveta na cozinha, tirar uma faca de cabo preto, descascar uma laranja. Viver é outra coisa: deixas a gaveta fechada e arrancas tudo com unhas e dentes, o sabor amargo da casca, de tão doce, não o esqueces.
Tristezas os olhos que não têm o brilho de contar, estão riscados de sombras como se o rasto dos caminhos o longe da viagem fosse, neles, deixando pistas.
Tristezas os olhos de onde me olhas detrás de um tempo passado, o tempo das promessas antigas.
Teus olhos, amado, são os olhos de alguém que já morreu e ainda não sabe.