terça-feira, 19 de abril de 2011

"Dos sinais", de Carlos Lopes Pires

(Poema lido e publicado em Tomar; a AJ lendo um livro aqui ao lado)

Expulsaram os pássaros da nossa rua.
Primeiro trouxeram máquinas escavadoras
e nuvens de pó,
depois chegaram carros bem vestidos
de onde saíam homens com papéis
e mãos vazias.
De uma ponta à outra da rua
serraram as árvores
que nos indicavam as sucessivas estações
dos nossos dias.
Como reconheceremos agora o outono?
Como saberemos da chegada dos sinais
se já nem os pássaros têm ramos

onde pousar as canções?

(in A fuga das cidades. Os ensinamentos)

sábado, 16 de abril de 2011

"Pequenos trabalhos de domingo", de Miguel-Manso

não saio antes
que tudo esteja pronto

a loiça a escorrer na cozinha
o aspirador cheio
a varanda lavada pelo dia
o rádio em off

nessa hora em que
a noite se aproxima devagar
do meu rosto
escrevo poema nenhum
falta-me língua

sento-me num banco do jardim
mais próximo
onde (que perfeição)

nada acontece

(in Resumo - a poesia em 2010)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Janela", de Miguel-Manso

dedico-me ao poema como um
homem velho se dedica a um vaso
com flores

(in Resumo - a poesia em 2010)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

(Dias sem poesia)


Marc Ribot interpreta "Happiness is a Warm Gun", dos Beatles (ao vivo em Copenhaga, Abril de 2011)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

domingo, 3 de abril de 2011

"Com unhas e dentes", de Luís Filipe Parrado

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

(in Resumo - a poesia em 2010)

quarta-feira, 30 de março de 2011

(Circular)


Michael Nyman & Motion Trio interpretando "Miranda", em Trojka (2009)

terça-feira, 29 de março de 2011

Poema de Carlos Lopes Pires

quando as observo distantes
compreendo que já
tudo foi revelado às aves

que tudo sabem sobre
o abismo das asas e o ar

que as move

(in O Livro das Pequenas Orações)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Versos de Lao Tzu

Não enchas a taça até transbordar.
É melhor que te detenhas antes.

Se afiares demasiado uma lâmina,
ele não durará muito tempo.

Se armazenares ouro em tua casa,
não conseguirás defendê-lo.

Se te vanglorias das riquezas e honrarias,
atrais sobre ti o infortúnio.

Quando o trabalho está terminado,
retira-te.

Esta a lei do céu.

(in Tao Te Ching. O livro do caminho e da sabedoria)

domingo, 27 de março de 2011

"Sombras", de Ana Paula Tavares

Tristezas os olhos
que não têm o brilho de contar,
estão riscados de sombras
como se o rasto dos caminhos
o longe da viagem
fosse, neles, deixando pistas.

Tristezas os olhos
de onde me olhas
detrás de um tempo passado,
o tempo das promessas antigas.

Teus olhos, amado,
são os olhos de alguém
que já morreu
e ainda não sabe.

(in Dizes-me coisas amargas como os frutos)

sábado, 26 de março de 2011

"Pulsação", de António Barahona

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d’árias tensas de ouro puro.

Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.

Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,

vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.

(in Resumo - a poesia em 2010)

sexta-feira, 25 de março de 2011

"Mais de uma vez", Carlos Lopes Pires

Chove. Mais de uma vez chove sobre os telhados.
E o vento vem, mais de uma vez vem,
e os mares e os barcos sobre os mares,
e os leitos dos rios enchem-se e mais de uma vez
se esvaziam e secam com o sol, e depois vem a chuva
e sol e sol. Adormece sobre a cadeira, a criança;
adormece um vez e outra.

Ao fundo o vento sopra entre as ervas, sopra;
no chão o amor acontece uma vez e outra,
mais de uma vez acontece.

(Só eu tenho uma vida apenas para te amar).

(in O livro dos cânticos (poemas de amor e ausência))

quinta-feira, 24 de março de 2011

"Portugal", de Alexandre O'Neill


Poema dito por Rui Spranger
("Um Poema por Semana", RTP)

"Tecidos", de Ana Paula Tavares

Meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida: duas faixas um losango
marcas da peste.

Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.

(in Dizes-me coisas amargas como os frutos)