terça-feira, 1 de março de 2011

Poema (de livro emprestado) de José Carlos González


É dever sacro do fogo alastrar
Alar aos astros __falar
Em múltiplas línguas a origem
E sua própria consumação.

Ao homem é dever do fogo
Lavá-lo rubro aos metais
Moldar-lhe a mão rupestre
Até à mais branda penugem.

São do fogo e do homem conquistas
Os planaltos __sinais no deserto
E salvação no mar.

(in No Alambique Escondido)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"Fatalidade", de Luísa Dacosta

Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?

(in A Maresia e o Sargaço dos Dias)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

"Entretenimento", de Luísa Dacosta

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.

(in A Maresia e o Sargaço dos Dias)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Uns quantos mais haikus de David Rodrigues

Passa um caracol
estendo agora os meus pés
ao não ver os dele.

* * *

Sereno e solene
rente ao chão como um elefante
segue o escaravelho.

(in Estações Sentidas. 111 Haiku)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Instinto", Luísa Dacosta

Para ti

Como a árvore sabe a floração
e o pássaro o rumo, certeiro, do voo
a minha sede de ti
sei.

(in A Maresia e o Sargaço dos Dias)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Surpreendendo-me com David Rodrigues

O lago não sabe
até que chegue o vento
quantas ondas tem.

(in Estações Sentidas. 111 Haiku)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Outra vez Elio Pecora

Desde sempre que abomino as armas,
não sei se por soberba ou se por medo,
e quanto aos cavaleiros
prefiro os cavalos.
Amo, sim, o amor
e continuo a procurá-lo
blasfemando e sofrendo,
como se não soubesse
que estou em servidão.

(in Poemas Escolhidos; trad. Simonetta Neto)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Poema de Elio Pecora


Os Etruscos deixaram túmulos pintados
dentro das cidades apagadas,
os Romanos ensoberbados
acabaram aterrorizados pelos Hunos,
catervas de escravos abeberaram-se
em nascentes de água verminosa,
mulheres esfarrapadas choraram,
choraram as rainhas de capa de seda.

Aquiles saiu da tenda
para vingar o amigo morto
por um herói mais incerto que feroz,
Penélope desfez a teia
para não descer e decidir-se,
Hamlet raciocinou com as sombras,
Faust escolheu o instante errado.

Eu, da minha parte,
sento-me vestido de escuro
e espero o telefonema que adie
para amanhã o meu problema.

(in Poemas Escolhidos; trad. Simonetta Neto)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Mais um haiku de David Rodrigues

Borboleta fugaz
o presente imprevisível
no teu cabelo.

(in Estações Sentidas. 111 Haiku)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Haiku de Lécio Ferreira

saudade -
e tudo o que tenho
é este búzio

(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

(Um farrapo de prosa)

Era um iletrado, não sabia ler mas era capaz de cantar e, tal como o iletrado rouxinol, era muitas vezes o autor da sua canção.

(in Herman Melville, Billy Bud)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dois haikus outonais de David Rodrigues

A chuva partiu
rasto de cristais de sol
a pingar das árvores.

* * *

Com mil olhos negros
a oliveira olha mansa
as aves que passam.

(in Estações Sentidas. 111 Haiku)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Cisne", de Fernando Echevarría

Vem dos olhos de Deus. Espuma
e exemplo vivo de nave.
Só levemente o perfuma
a forma de neve e ave.
Devagar abre-lhe o lago
o coração. E ao afago
de tanta beleza pura,
ergue-se tanta alegria
que se ignora se o que dura
é a luz do cisne ou é dia.

(in Obra Inacabada)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Dois haikus de Dinis Lapa

Giro o globo
o dedo indicador
perde-se no Pacífico

* * *

Eu
e o cacto
fartos da chuva

(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)