(O poemapossivel faz hoje três anos - o mesmo é dizer que o poema tem sido possível nestes três últimos anos. O que permanece e o que mudou? Permanece - seguramente - o gosto pela poesia, pela descoberta de novos autores, pela leitura (não só de poesia) e pelos livros; permanece o esforço por valorizar "as pequenas coisas" da vida, por procurar as várias tonalidades da beleza, mesmo quando, seja por factores exógenos ou endógenos, o contexto é o menos apropriado. Entretanto, mudou a nossa vontade de ter uma voz poética própria (sim, um dia tivemos essa ilusão...); e mudou ainda (alargou-se) a nossa expectativa de futuro. O poemapossivel conheceu momentos de incerteza, ou de menor dinamismo que o desejável - reflectindo as condicionantes da vida do autor do blogue -, mas resistiu. O que esperamos é que resista um dia mais, e ao dia a seguir a esse, e aos outros que lhe seguirão.)
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Poema de Luís Quintais
Leitor,
eclipsam-se
teus difusos pensamentos,
eclipsam-se
as palmeiras,
os retratos,
os ternos animais,
as casas, as mãos.
Leitor,
de mágoa e vento
são tuas mãos.
Condenado ao oco,
breve, estás.
eclipsam-se
teus difusos pensamentos,
eclipsam-se
as palmeiras,
os retratos,
os ternos animais,
as casas, as mãos.
Leitor,
de mágoa e vento
são tuas mãos.
Condenado ao oco,
breve, estás.
(in Verso Antigo)
domingo, 16 de janeiro de 2011
Muito apreciei estes dois versos de Luís Quintais

Visitam o aquário. De improváveis cores é a vida.
Ictiológicas formas observam-nos.
(versos do poema "The Lady of Shangai", in Verso Antigo)
Dois haikus de Liberto Cruz
Onda a onda
O mar
Se anuncia.
Cada onda do mar
É um oceano
De mensagens.
O mar
Se anuncia.
* * *
Cada onda do mar
É um oceano
De mensagens.
(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)
Um punhado mais de versos de Casimiro de Brito
Há dois anos que dormimos
na minha cama de homem
só. Não sobra
um palmo. Como se fôssemos
um corpo estreito e cheio de
cumplicidade. Talvez
sejamos. Quando viajamos
há sempre duas camas nos quartos
de hotel. E sempre deixámos
uma delas
intacta.
na minha cama de homem
só. Não sobra
um palmo. Como se fôssemos
um corpo estreito e cheio de
cumplicidade. Talvez
sejamos. Quando viajamos
há sempre duas camas nos quartos
de hotel. E sempre deixámos
uma delas
intacta.
(in Arte Pobre)
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
"Abraço", de Fernando Echevarría
A muitos mares de mim
estás tu. Estás a dois passos.
Muralhas. Ferros. Tem fim
a música dos meus braços?
Nó. A morte vem aí.
Entras por mim, eu por ti
à força do amor. Já só
o exemplo e a luz do espaço.
Apertámos tanto o nó
que fomos além do abraço.
estás tu. Estás a dois passos.
Muralhas. Ferros. Tem fim
a música dos meus braços?
Nó. A morte vem aí.
Entras por mim, eu por ti
à força do amor. Já só
o exemplo e a luz do espaço.
Apertámos tanto o nó
que fomos além do abraço.
(in Obra Inacabada)
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
[Deus enrolava-nos vagarosamente], de Paulo José Miranda
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Mais dois poemas de Casimiro de Brito
Há quantos anos me sento
a ver o mar? Amor
sem falhas.
a ver o mar? Amor
sem falhas.
* * *
Cidade caótica -
a borboleta atravessa a rua
com o sinal vermelho.
(in Arte Pobre)
domingo, 9 de janeiro de 2011
Haiku de Albano Martins
Diz o vento
ao mar: sem mim,
não podes voar.
ao mar: sem mim,
não podes voar.
(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
"Havia terra neles", de Paul Celan
Havia terra neles, e
cavavam.
Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.
Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.
Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.
Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.
cavavam.
Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.
Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.
Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.
Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.
(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; trad. Yvette K. Centeno)
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
"Como voltar feliz ao meu trabalho", de William Shakespeare
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.
(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; reescrito em português por Carlos de Oliveira)
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
(O primeiro poema do ano pôs-me a pensar em ti)
Esta manhã esqueci-me
de tomar chá. Sinto ainda
a boca perfumada
dos teus beijos.
de tomar chá. Sinto ainda
a boca perfumada
dos teus beijos.
Casimiro de Brito
(in Arte Pobre)
(in Arte Pobre)
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
(Último poema de 2010)
Hora após hora, dia após dia
entre o céu e a terra que perduram,
vigilantes eternas,
como torrentes que se despenham,
assim passam as vidas.
Devolvei à flor o seu perfume
depois de ter secado;
das ondas que beijam a praia
e que, uma após outra, ao beijá-la expiram,
guardai os rumores, as queixas,
e em placas de blonze gravai a sua harmonia.
Tempos que passaram, prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde estarão as suas marcas,
ai, onde estará, alma minha?
entre o céu e a terra que perduram,
vigilantes eternas,
como torrentes que se despenham,
assim passam as vidas.
Devolvei à flor o seu perfume
depois de ter secado;
das ondas que beijam a praia
e que, uma após outra, ao beijá-la expiram,
guardai os rumores, as queixas,
e em placas de blonze gravai a sua harmonia.
Tempos que passaram, prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde estarão as suas marcas,
ai, onde estará, alma minha?
Rosalía de Castro
(in Nas Margens do Sar)
(in Nas Margens do Sar)
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