domingo, 16 de janeiro de 2011

Muito apreciei estes dois versos de Luís Quintais


Visitam o aquário. De improváveis cores é a vida.
Ictiológicas formas observam-nos.

(versos do poema "The Lady of Shangai", in Verso Antigo)

Dois haikus de Liberto Cruz

Onda a onda
O mar
Se anuncia.

* * *

Cada onda do mar
É um oceano
De mensagens.

(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)

Um punhado mais de versos de Casimiro de Brito

Há dois anos que dormimos
na minha cama de homem
só. Não sobra
um palmo. Como se fôssemos
um corpo estreito e cheio de
cumplicidade. Talvez
sejamos. Quando viajamos
há sempre duas camas nos quartos
de hotel. E sempre deixámos
uma delas
intacta.

(in Arte Pobre)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Abraço", de Fernando Echevarría

A muitos mares de mim
estás tu. Estás a dois passos.
Muralhas. Ferros. Tem fim
a música dos meus braços?
Nó. A morte vem aí.
Entras por mim, eu por ti
à força do amor. Já só
o exemplo e a luz do espaço.
Apertámos tanto o nó
que fomos além do abraço.

(in Obra Inacabada)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

(Minimal)


Dustin Wong interpreta excerto de "Infinite Love", em Nova Iorque, em 2010.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

[Deus enrolava-nos vagarosamente], de Paulo José Miranda

Deus enrolava-nos vagarosamente
para acabarmos entre os seus dedos.
A esse seu prazer chamou tempo
e onde havia dor nasciam cigarros.
Pensou no fogo como sendo belo
de modo a morrermos maravilhados.


(in O Tabaco de Deus)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mais dois poemas de Casimiro de Brito

Há quantos anos me sento
a ver o mar? Amor
sem falhas.

* * *

Cidade caótica -
a borboleta atravessa a rua
com o sinal vermelho.

(in Arte Pobre)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Haiku de Albano Martins

Diz o vento
ao mar: sem mim,
não podes voar.

(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Havia terra neles", de Paul Celan

Havia terra neles, e
cavavam.

Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.

Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.

Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; trad. Yvette K. Centeno)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Como voltar feliz ao meu trabalho", de William Shakespeare

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; reescrito em português por Carlos de Oliveira)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

(O primeiro poema do ano pôs-me a pensar em ti)

Esta manhã esqueci-me
de tomar chá. Sinto ainda
a boca perfumada
dos teus beijos.

Casimiro de Brito
(in Arte Pobre)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(Último poema de 2010)

Hora após hora, dia após dia
entre o céu e a terra que perduram,
vigilantes eternas,
como torrentes que se despenham,
assim passam as vidas.

Devolvei à flor o seu perfume
depois de ter secado;
das ondas que beijam a praia
e que, uma após outra, ao beijá-la expiram,
guardai os rumores, as queixas,
e em placas de blonze gravai a sua harmonia.

Tempos que passaram, prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde estarão as suas marcas,
ai, onde estará, alma minha?

Rosalía de Castro
(in Nas Margens do Sar)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quadra de Rosalía de Castro

Embora o meu coração gele
sinto que me estou queimando;
pois o gelo, algumas vezes,
é como o fogo: arde tanto!

(in Nas Margens do Sar)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Haikus de Casimiro de Brito

O mundo não posso mudar -
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias

* * *

Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se

(in Através do Ar)

domingo, 26 de dezembro de 2010