domingo, 9 de janeiro de 2011

Haiku de Albano Martins

Diz o vento
ao mar: sem mim,
não podes voar.

(in De frente para o mar. Poesia haiku contemporânea; org. David Rodrigues)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"Havia terra neles", de Paul Celan

Havia terra neles, e
cavavam.

Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.

Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.

Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; trad. Yvette K. Centeno)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Como voltar feliz ao meu trabalho", de William Shakespeare

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; reescrito em português por Carlos de Oliveira)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

(O primeiro poema do ano pôs-me a pensar em ti)

Esta manhã esqueci-me
de tomar chá. Sinto ainda
a boca perfumada
dos teus beijos.

Casimiro de Brito
(in Arte Pobre)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

(Último poema de 2010)

Hora após hora, dia após dia
entre o céu e a terra que perduram,
vigilantes eternas,
como torrentes que se despenham,
assim passam as vidas.

Devolvei à flor o seu perfume
depois de ter secado;
das ondas que beijam a praia
e que, uma após outra, ao beijá-la expiram,
guardai os rumores, as queixas,
e em placas de blonze gravai a sua harmonia.

Tempos que passaram, prantos e risos,
negros tormentos, doces mentiras,
ai, onde estarão as suas marcas,
ai, onde estará, alma minha?

Rosalía de Castro
(in Nas Margens do Sar)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Quadra de Rosalía de Castro

Embora o meu coração gele
sinto que me estou queimando;
pois o gelo, algumas vezes,
é como o fogo: arde tanto!

(in Nas Margens do Sar)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Haikus de Casimiro de Brito

O mundo não posso mudar -
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias

* * *

Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se

(in Através do Ar)

domingo, 26 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Poema de Paula Tavares

Havia tantos pássaros
na boca das árvores
que se podia começar o dia
dizendo apenas pássaro
folha manhã

(in Como veias finas na terra)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

(Na via de Casimiro de Brito)

"Trabalho na Arte Pobre, reunião de poemas cada vez mais limpos e nus em que procuro concentrar o "todo" no mínimo. Pobre é de facto a arte do homem, mas não tão pobre como ele próprio - nem tão nefasta. Uma arte, essa busco, onde escavar seja mais relevante que desenvolver, reproduzir. Mais umas noites brancas e o livro, ofício de oleiro, ficará reduzido ao osso. Como convém".

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração)

["Beijo-a no sono"], de Casimiro de Brito

Beijo-a no sono - beijo-a
mentalmente não vá eu acordar
a luz dos meus dias.

(in Arte Pobre)

(Merry Christmas, Mr. Lawrence)


Ryuichi Sakamoto Trio interpreta o tema "Merry Christmas Mr. Lawrence", da banda sonora do filme com o mesmo nome.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dois haikus - Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi


Uma cidade! Um grão
de areia! Fragmentos
da Via Láctea

Casimiro de Brito

* * *

Também a Terra, um grão -
e dele germinou, solar,
um haiku

Ban'ya Natsuishi

(in Através do Ar)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Soneto de Shakespeare

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração; trad. Carlos de Oliveira)