domingo, 5 de dezembro de 2010

"Assim eu fosse o seu espelho", de Anacreonte

à AJ

Assim eu fosse o seu espelho
para poder captar o branco do seu olhar!

Assim eu fosse o seu vestido,
envolvendo-a sempre!

Assim eu fosse a água que lava o seu corpo
e o bálsamo perfumado que vai ungi-la!

Assim eu fosse a faixa de linho
que cinge os seus seios
ou o colar que acaricia o seu colo!

Assim eu fosse a sandália
que ela pisa!

(in Casimiro de Brito, Na Barca do Coração)

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Ao meu maior amigo", de Alexander Search

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.

Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.

A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

(in Poesia de Alexander Search; trad. Luísa Freire)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(Através do Ar)

"To my dearest friend", de Alexander Search

When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.

This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.

After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.

Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.

(in Poesia de Alexander Search)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

(A gente não lê)


Isabel Silvetre interpreta "A Gente Não Lê" (letra de Carlos Tê; música de Rui Veloso)

Um poema mais de Casimiro de Brito

Apresso-me. O dia
está no fim
mas vou fazer ainda
isto e aquilo. A noite
breve
como a sombra de uma ave
que passa. Apresso-me.
Porquê,
se tudo é nada?

(in Arte Pobre)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Versos de Casimiro de Brito


Como sou frágil - penso,
olhando o rio.

Volátil o meu sangue,
um fio.

E regresso ao corpo (apenas
sangue) do rio.

(in Arte Pobre)

sábado, 27 de novembro de 2010

Poema de Pedro Tamen

Agora, se pode dizer-se agora, ou pôr-do-sol,
ou nascer da manhã, seja o que for: agora
podes ressonhar o que talvez sonhaste
quando o sol se punha realmente, e a manhã
de verdade nascia quando mal o sonhavas.

Mas, nesta operação de refazer sonhado
o que sonhado foi, o que não podes
é fazer real de qualquer jeito, sequer regar
a pequena planta que espera ser de ti.

(in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

"O vento na ilha", de Pablo Neruda

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como percorre o mundo
para levar-me para longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva abre
contra o mar e contra a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me para longe.

Com tua fronte na minha
e na minha a tua boca,
atados os nossos corpos
ao amor que nos abrasa,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e procure
galopando na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
por esta noite apenas
descansarei, meu amor.

(in Os Versos do Capitão; trad. Albano Martins)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Haiku de Issa Kobayashi

Caracol,
lento, lento, lento - sobe
o Fuji.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

sábado, 20 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Os teus pés", de Pablo Neruda


Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

(in Os Versos do Capitão; trad. Albano Martins)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

(Stabat Mater)


Nathalie Stutzmann interpreta, com o emsemble ORFEO 55, um extrato da obra "Stabat Mater", de Antonio Vivaldi, em concerto realizado em 2010 na Sala Gaveau (Paris)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Porta", de Pedro Mexia

Quando deixamos ir atrás de nós a porta
puxada por molas e dobradiças,
pode haver alguém que venha depois
e com um gesto queira entrar ou sair
e ampare a porta
e sobre esse gesto sabemos muito pouco.

(in Duplo Império)