domingo, 14 de novembro de 2010

Poema Zen

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"Portugal", de Jorge Sousa Braga (em tempos de crise)

Poema de Jorge Sousa Braga dito por Miguel Borges (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Há nomes que ficam", de Pedro Mexia

Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
transitam de ano para ano por inerência
ou desleixo, por vezes o nome próprio
é uma referência obscura, e nunca houve apelido.
Os números, em poucos anos,
passam de mnemónicas a criptogramas,
indicam sem dúvida que nos cruzámos
com gente que se cruza connosco,
que trocámos telefones como se
trocássemos alguma coisa,
mas tudo muda, os conhecidos
tornam-se amigos e depois desconhecidos.
Estes nomes, posso riscá-los
como se fosse velho e eles mortos,
mas os números, como uma praga,
acumulam-se, escritos
com tintas diferentes
e por vezes nas letras erradas.
Não posso desfazer-me das agendas
nem começar uma todos os anos,
mas já não sou o mesmo:
os números observaram as minhas idades
e talvez pudesse agora marcar este
que não me diz nada
e contar tudo
a alguém que não se lembra de mim.

(in Duplo Império)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

"As gavetas", de Pedro Mexia

Com gratidão e admiração, ao Pedro Mexia, por este seu primeiro livro.
Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

(in Duplo Império)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Nascemos para o sono"

Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

(Poesia mexicana do ciclo Nauatle, in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dois versos do "Cântico dos Cânticos"

Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Epigrama", de Bocage

Levando um velho avarento
Uma pedrada n'um olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias,
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

"Dez moedas! (Diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso."

(in Fábulas de Bocage)

Herberto Helder reeditado

Capa de livros de Herberto Helder (de poemas mudados para português) recentemente reeditado. A edição original data de 1968.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"O macaco declamando", de Bocage

Um mono, vendo-se um dia
Entre brutal multidão,
Dizem que lhe deu na cabeça
Fazer uma pregação.

Creio que seria o tema
Indigno de se tratar,
Mas isto pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas, mil palmas,
Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao Poeta,
Orador e outros que tais:
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

(in Fábulas de Bocage)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"Vénus aérea", de Nuno Júdice

É um mistério esta claridade
que nasce de um corpo sem passado,
onde a leio numa língua sem idade,
adivinhando o seu futuro neste fado.

Caem pálpebras num cair de pano,
abrem-se dedos num florir de mão,
no seu jardim a primavera não é engano,
no seu rosal o amor está em botão.

Uma boca de pérola envolve-a de segredo,
e dela tiro um brilho de estrela.
Respiro o seu perfume sem ter medo,

acendo nos seus olhos a última vela.
Levo-a como deusa ao templo do mar,
e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.

(in Guia de Conceitos Básicos)

domingo, 17 de outubro de 2010

"Acto de ler", de Teresa M. G. Jardim

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

(in Jogos Radicais)

domingo, 10 de outubro de 2010

"Crime perfeito", de Teresa M. G. Jardim

O meu gato branco gosta de brincar
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.

(in Jogos Radicais)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

(Pensar é estar doente dos olhos)

David Fonseca from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.


Poema de Alberto Caeiro dito por David Fonseca (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Acalanto", de Paulo Henriques Britto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projectos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com urna ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

(in Macau)