domingo, 10 de outubro de 2010

"Crime perfeito", de Teresa M. G. Jardim

O meu gato branco gosta de brincar
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.

(in Jogos Radicais)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

(Pensar é estar doente dos olhos)

David Fonseca from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.


Poema de Alberto Caeiro dito por David Fonseca (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

"Acalanto", de Paulo Henriques Britto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projectos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com urna ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

(in Macau)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

(Centenário da Republica)

(Tem - indiscutivelmente - os seus defeitos, mas reconheço-lhe várias virtudes. Sou republicano).

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Lucidez", de António Manuel Couto Viana

Em cada instante, a poesia
Morre em mim.
E a mão certeira que a escrevia
Escreve assim:

Qualquer poesia alheia
Não pode ser comparada
Com esta minha, tão cheia
De nada.

Quem a lê logo conhece
Que é
Aquela que não merece
Nem nota de rodapé.

E, se a estudou, sabe agora
Que perdeu a inspiração.
E cora
De lhe haver dado atenção.

Quem sou de mim foi-se embora:
Pára, de vez, coração!
(Mas dilacera-me a espora:
– Ainda não!)

(in Ainda Não)

"De vulgari eloquentia", de Paulo Henriques Britto

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.

(in Macau)

domingo, 3 de outubro de 2010

"O lugar do morto", de Tiago Araújo

ao teu lado, no lugar do morto, enquanto
conduzes a conversa a uma frase sem
preparação. chegámos tarde à praia,
como a quase tudo. o vento levanta o
pó do parque de estacionamento e não
saímos do carro. não sei a resposta certa
e por isso represento mal o meu papel secundário.
limito-me a ficar em silêncio, onde
sempre me senti mais confortável.
um lugar sombrio, discreto, abrigado
e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.

(in Livre Arbítrio)

domingo, 19 de setembro de 2010

"Morada", de Margarida Ferra

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nosso gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

(in Curso Intensivo de Jardinagem)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Duas horas e cinquenta e cinco minutos", de Margarida Ferra

Cumprida a promessa do ano novo,
pousaram-me sobre a barriga
(quase vazia),

dois pés lilases,

grandes e pequeninos.

(in Curso Intensivo de Jardinagem)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HOJE HÁ CARACÓIS: excertos de poema de Pedro Tamen

O caracol conhece pouco mundo,
mas é colado a ele
que o conhece.

* * *

Só é lento quem vai mais devagar
que aquilo que deseja.

(excertos do poema "Caracóis", in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O funcionário cansado", de António Ramos Rosa


Adriano Luz - "O Funcionário Cansado" from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.

Poema dito por Adriano Luz (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

"Os livros", de Inês Lourenço

Este "post" é dedicado a Inês Lourenço, que teve a gentileza de nos oferecer o seu último livro e a quem o poemapossivel muito agradece.


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

(in Coisas que nunca)
(ver ainda o blogue da autora: http://logrosconsentidos.blogspot.com)