quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"Duas horas e cinquenta e cinco minutos", de Margarida Ferra

Cumprida a promessa do ano novo,
pousaram-me sobre a barriga
(quase vazia),

dois pés lilases,

grandes e pequeninos.

(in Curso Intensivo de Jardinagem)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HOJE HÁ CARACÓIS: excertos de poema de Pedro Tamen

O caracol conhece pouco mundo,
mas é colado a ele
que o conhece.

* * *

Só é lento quem vai mais devagar
que aquilo que deseja.

(excertos do poema "Caracóis", in Retábulo das Matérias, 1956-2001)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O funcionário cansado", de António Ramos Rosa


Adriano Luz - "O Funcionário Cansado" from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.

Poema dito por Adriano Luz (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

"Os livros", de Inês Lourenço

Este "post" é dedicado a Inês Lourenço, que teve a gentileza de nos oferecer o seu último livro e a quem o poemapossivel muito agradece.


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

(in Coisas que nunca)
(ver ainda o blogue da autora: http://logrosconsentidos.blogspot.com)

sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Para um gato", de Inês Lourenço

Assassinei alguns pardais
mas depois lambia o pêlo
exaustivamente para ser
digno das carícias do dono.

(in Coisas que nunca)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

(Novamente sobre mãos - lembrando-me da tua)

Sei bastante de mãos: falange, falanginha e falangeta,
e o resto estudado.
O rosado das unhas com um brilho
igual ao dos olhos normais.
(Ah, do que as mãos vêem falaremos de outra vez.
E também dos olhos teus, e teus.)
Linhas que não interessam, ou apenas
como à saída de uma grande estação: desconhecidas
quanto ao que prometem.
Carne quanto baste no melhor dos casos.
Veias discretas. Sangue adivinhado.
E os nós: nos promontórios altos
respiram como geysers,
aquecem, lançam setas,
roçam, magoam, contradizem.

Mas é na força que as fecha em concha
e as abre jurando até ao fim do tempo
ou as faz dançarinas pelo ar,
flébeis ou hirtas, aguçadas,
lassas - é no silêncio em que resumem corpos
que gritam ou ciciam o que delas sei.

Pedro Tamen
(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

De Pedro Tamen

Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
- silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"Felinus", de Inês Lourenço

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

(in Coisas que nunca)

domingo, 22 de agosto de 2010

(Love Theme)


"Ennio Morricone conduz "Love Theme", da banda sonora por ele composta para "Cinema Paraíso""

sábado, 21 de agosto de 2010

"Sala provisória", de Inês Lourenço

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

(in Coisas que nunca)