terça-feira, 7 de setembro de 2010

"O funcionário cansado", de António Ramos Rosa


Adriano Luz - "O Funcionário Cansado" from Ricardo Barros Espírito Santo on Vimeo.

Poema dito por Adriano Luz (ideia: Nuno Artur Silva; produção: "Até ao Fim do Mundo"; imagem: João Filipe Rodrigues; realização: Ricardo Espírito Santo)

"Os livros", de Inês Lourenço

Este "post" é dedicado a Inês Lourenço, que teve a gentileza de nos oferecer o seu último livro e a quem o poemapossivel muito agradece.


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

(in Coisas que nunca)
(ver ainda o blogue da autora: http://logrosconsentidos.blogspot.com)

sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Para um gato", de Inês Lourenço

Assassinei alguns pardais
mas depois lambia o pêlo
exaustivamente para ser
digno das carícias do dono.

(in Coisas que nunca)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

(Novamente sobre mãos - lembrando-me da tua)

Sei bastante de mãos: falange, falanginha e falangeta,
e o resto estudado.
O rosado das unhas com um brilho
igual ao dos olhos normais.
(Ah, do que as mãos vêem falaremos de outra vez.
E também dos olhos teus, e teus.)
Linhas que não interessam, ou apenas
como à saída de uma grande estação: desconhecidas
quanto ao que prometem.
Carne quanto baste no melhor dos casos.
Veias discretas. Sangue adivinhado.
E os nós: nos promontórios altos
respiram como geysers,
aquecem, lançam setas,
roçam, magoam, contradizem.

Mas é na força que as fecha em concha
e as abre jurando até ao fim do tempo
ou as faz dançarinas pelo ar,
flébeis ou hirtas, aguçadas,
lassas - é no silêncio em que resumem corpos
que gritam ou ciciam o que delas sei.

Pedro Tamen
(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

De Pedro Tamen

Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
- silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.

(in Retábulo das Matérias (1956-2001))

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"Felinus", de Inês Lourenço

A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

(in Coisas que nunca)

domingo, 22 de agosto de 2010

(Love Theme)


"Ennio Morricone conduz "Love Theme", da banda sonora por ele composta para "Cinema Paraíso""

sábado, 21 de agosto de 2010

"Sala provisória", de Inês Lourenço

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

(in Coisas que nunca)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

"Na noite de Madrid", de Ruy Belo

Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
de quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» - perguntou-me o homem do táxi
«- Eu tenho cinco mil pesetas - respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia

(in Todos os Poemas, vol. III)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

(Pensando num epitáfio)

(Há uns dias atrás, pensava com os meus botões - eram principalmente os botões a pensar, devo admitir - num epitáfio adequado ao poemapossivel. Desenhei vários dentro do pensamento - uns curtos, outros algo mais que curtos, uns calorosos, e outros frios como mármore de cemitério - sei bem que a imagem é banal, mas não quero escamotear a minha própria banalidade. A morte do poemapossivel? Julgo que não é isso que pretendo - pelo menos para já. Mas, às vezes, por ser cada vez menos o vagar para o continuar, ou por sentir que este espaço é excessivamente inócuo, penso no seu fim. "O poema deixou de ser possível"? Ainda não, ao que parece.)