quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Soneto amoroso", de Francisco Quevedo

__Pássaro mais sozinho, à dor atreito,
onde se viu, nem fera em monte ou prado?
Deserto estou de mim, abandonado
por minha alma, em lástima desfeito.
__Chorarei sempre meu maior proveito;
mágoas serão e fel o pão tragado;
a noite anseio, o repouso cuidado,
e duro campo de batalha o leito.
__Face da morte, o sono me perverte
e vence em mim a morte em aspereza,
pois que me impede o sumo bem de ver-te.
__Que tanto é teu fulgor, tua beleza:
se a Natureza assim pôde fazer-te,
milagres fazer pode a Natureza.

(in Antologia Poética)

(Contrabaixo)


Dave Holland intepretando "Mr. PC", de John Coltrane

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"Verdes são os campos", de Luís de Camões

Para a AJ

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

"Desenganado da aparência exterior com o exame interior e verdadeiro", de Francisco Quevedo

__Vês tu este gigante corpulento
que solene e soberbo se reclina?
Pois por dentro é farrapos e faxina,
e é um carregador seu fundamento.
__Com sua alma vive e é movimento,
e onde ele quer sua grandeza inclina;
mas quem seu modo rígido examina
despreza tal figura e ornamento.
__São assim as grandezas aparentes
da presunção vazia dos tiranos:
fantásticas escórias eminentes.
__vês que, em púrpura ardendo, são humanos?
As mãos com pedrarias são diferentes?
Pois dentro nojo são, terra e gusanos.

(in Antologia Poética; trad. José Bento)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quatro versos de Ruy Belo

Eu nunca estive em roma e muito menos hoje
onde pressinto estar porque cá estou
mas donde nunca estive tão ausente
pois donde estou mais longe é sempre donde estou

(versos do poema "A sombra o sol", in Todos os Poemas, vol. III)

domingo, 1 de agosto de 2010

(Às vezes)

(Às vezes, tropeçamos; ou acordamos agitados com a suspeita de um sonho menos bom; temos sustos da manhã para a noite; receamos mil desfechos negativos; em suma, sentimos medo; e relembramos a nossa insignificância. Perguntamo-nos: ainda haverá poesia?)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Excerto de poema de Vinicius de Moraes

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

(versos do poema "A bomba atômica", II, in Antologia Poética)

"Ovelhas na névoa", de Sylvia Plath

As colinas penetram na brancura.
Homens ou estrelas
olham-me com tristeza, desiludo-os.

O comboio deixa um rastro do seu alento.
Oh vagaroso
cavalo da cor da ferrugem.

Cascos, dolorosos sinos...
Toda a manhã
a manhã obscureceu

uma flor abandonada.
Os meus ossos absorvem a quietude, longínquos
campos enternecem o meu coração.

Ameaçam
levar-me para um céu
sem estrelas e sem pai: uma água negra.

(in Pela Água; trad. Maria de Lourdes Guimarães)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hoje, apenas um verso de Nuno Júdice

Um hálito de nuvens empurra-me para agosto.

(verso do poema "Estilo", in Poesia Reunida, 1967-2000)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Epitáfio", de Vinicius de Moraes

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possui a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

(in Antologia Poética)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dois poemas curtos de Adília Lopes

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

* * *

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

(in Dobra. Poesia Reunida)

sábado, 17 de julho de 2010

"Génese", de Nuno Júdice

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Zoologia: o tigre", de Nuno Júdice

Há tigres doentes na melancolia dos poentes,
com furores cinzentos nos movimentos lentos;
breves brilhos na eternidade de dorsos leves
chamam chamas nas escamas do chão, nas lamas

profundas de olheiras vagabundas num rosto
de visão - o mosto de passos em pedaços, cansaços
de lamento no vento que resta de um floresta
em fogo: rogo que não dura de escura sepultura.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Versos de Adília Lopes

Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

(in Dobra. Poesia Reunida)