quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quatro versos de Ruy Belo

Eu nunca estive em roma e muito menos hoje
onde pressinto estar porque cá estou
mas donde nunca estive tão ausente
pois donde estou mais longe é sempre donde estou

(versos do poema "A sombra o sol", in Todos os Poemas, vol. III)

domingo, 1 de agosto de 2010

(Às vezes)

(Às vezes, tropeçamos; ou acordamos agitados com a suspeita de um sonho menos bom; temos sustos da manhã para a noite; receamos mil desfechos negativos; em suma, sentimos medo; e relembramos a nossa insignificância. Perguntamo-nos: ainda haverá poesia?)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Excerto de poema de Vinicius de Moraes

A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

(versos do poema "A bomba atômica", II, in Antologia Poética)

"Ovelhas na névoa", de Sylvia Plath

As colinas penetram na brancura.
Homens ou estrelas
olham-me com tristeza, desiludo-os.

O comboio deixa um rastro do seu alento.
Oh vagaroso
cavalo da cor da ferrugem.

Cascos, dolorosos sinos...
Toda a manhã
a manhã obscureceu

uma flor abandonada.
Os meus ossos absorvem a quietude, longínquos
campos enternecem o meu coração.

Ameaçam
levar-me para um céu
sem estrelas e sem pai: uma água negra.

(in Pela Água; trad. Maria de Lourdes Guimarães)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hoje, apenas um verso de Nuno Júdice

Um hálito de nuvens empurra-me para agosto.

(verso do poema "Estilo", in Poesia Reunida, 1967-2000)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

"Epitáfio", de Vinicius de Moraes

Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possui a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

(in Antologia Poética)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dois poemas curtos de Adília Lopes

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

* * *

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

(in Dobra. Poesia Reunida)

sábado, 17 de julho de 2010

"Génese", de Nuno Júdice

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Zoologia: o tigre", de Nuno Júdice

Há tigres doentes na melancolia dos poentes,
com furores cinzentos nos movimentos lentos;
breves brilhos na eternidade de dorsos leves
chamam chamas nas escamas do chão, nas lamas

profundas de olheiras vagabundas num rosto
de visão - o mosto de passos em pedaços, cansaços
de lamento no vento que resta de um floresta
em fogo: rogo que não dura de escura sepultura.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Versos de Adília Lopes

Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

(in Dobra. Poesia Reunida)

domingo, 20 de junho de 2010

(Knives Out)


Brad Mehldau Trio interpretando "Knives Out" (dos Radiohead), no Festival de Jazz Vitoria-Gasteiz, em 2006 (Brad Mehldau - piano; Larry Grenadier - contrabaixo; Jeff Ballard - bateria)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

In memoriam


(Hoje faleceu o nosso Nobel, e o poemapossivel não quis deixar de lhe prestar homenagem. Ainda que não sendo o maior dos admiradores da obra poética deste autor, é impossível olvidar que o nome deste blogue repete o título de um dos seus livros.)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema de Adília Lopes

Mordiscas-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter que te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Principio de certidumbre/Princípio de certeza", de José Manuel Díez

Llegaré con los versos, y no harán falta versos.
Llegaré con las rosas, y no harán falta rosas.
Llegaré con la música, y no hará falta música.

Sin embargo sostengo la radiante certeza
de que alguien me espera.

Um día, llegaré.

* * *

Chegarei com os versos, e não farão falta versos.
Chegarei com as rosas, e não farão falta rosas.
Chegarei com a música, e não fará falta música.

No entanto sustento a radiante certeza
de que alguém me espera.

Um dia, chegarei.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)