segunda-feira, 19 de julho de 2010

Dois poemas curtos de Adília Lopes

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

* * *

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

(in Dobra. Poesia Reunida)

sábado, 17 de julho de 2010

"Génese", de Nuno Júdice

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Zoologia: o tigre", de Nuno Júdice

Há tigres doentes na melancolia dos poentes,
com furores cinzentos nos movimentos lentos;
breves brilhos na eternidade de dorsos leves
chamam chamas nas escamas do chão, nas lamas

profundas de olheiras vagabundas num rosto
de visão - o mosto de passos em pedaços, cansaços
de lamento no vento que resta de um floresta
em fogo: rogo que não dura de escura sepultura.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Versos de Adília Lopes

Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu

(in Dobra. Poesia Reunida)

domingo, 20 de junho de 2010

(Knives Out)


Brad Mehldau Trio interpretando "Knives Out" (dos Radiohead), no Festival de Jazz Vitoria-Gasteiz, em 2006 (Brad Mehldau - piano; Larry Grenadier - contrabaixo; Jeff Ballard - bateria)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

In memoriam


(Hoje faleceu o nosso Nobel, e o poemapossivel não quis deixar de lhe prestar homenagem. Ainda que não sendo o maior dos admiradores da obra poética deste autor, é impossível olvidar que o nome deste blogue repete o título de um dos seus livros.)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema de Adília Lopes

Mordiscas-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter que te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Principio de certidumbre/Princípio de certeza", de José Manuel Díez

Llegaré con los versos, y no harán falta versos.
Llegaré con las rosas, y no harán falta rosas.
Llegaré con la música, y no hará falta música.

Sin embargo sostengo la radiante certeza
de que alguien me espera.

Um día, llegaré.

* * *

Chegarei com os versos, e não farão falta versos.
Chegarei com as rosas, e não farão falta rosas.
Chegarei com a música, e não fará falta música.

No entanto sustento a radiante certeza
de que alguém me espera.

Um dia, chegarei.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 6 de junho de 2010

"La alegría, la ausencia/A alegria, a ausência", de José Manuel Díez

Nunca fue la alegría
mayor que entre tus brazos.
Ni mayor fue la ausencia que sin ellos.

* * *

Nunca foi a alegria
maior que entre os teus braços.
Nem maior a ausência do que sem eles.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 30 de maio de 2010

(Um pouco de prosa)

Os cavalos corriam agora para escapar à nuvem de moscas que cercava o acampamento, zumbindo em frenezi sobre as montanhas de excrementos.
- Ainda o esterco de muitos bravos cavaleiros continua espalhado pela terra - observou Curzio - e já as suas almas se encontram no céu...

Italo Calvino
(O Visconde Cortado ao Meio)

terça-feira, 18 de maio de 2010

(Álbum de fotografias)

(Percorri vezes sem conta as fotografias do nosso álbum. Já não o abria há algum tempo... Seca, entre as páginas, repousava a pétala de uma flor que colhi para te enfeitar os cabelos. Detive-me em cada imagem: naquela em que, sorrindo, olhas o fotógrafo ostentando essa flor, e na outra em que o castelo, as árvores e o relvado, dispostos atrás de ti, não parecem ser reais, mas antes parte de um cenário teatral. Nem o sol, lá fora, nem as tarefas pendentes, cá dentro, conseguiram desviar-me desta colecção de imagens; nas páginas que estão por preencher, parei - o que se segue?).

"Um outro tanto", de Maria Teresa Horta

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

É amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

Perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de tal jeito que desconhecia

Poder amar-te ainda
um outro tanto

(in Poesia Reunida)

terça-feira, 11 de maio de 2010

"Envenena-me", de Maria Teresa Horta

Aperta-me forte
ao coração
Abraça-me depressa sobre as asas

Debruça-te em mim
e porque não?
Envenena-me de ti porque me salvas

(in Poesia Reunida)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

(Queria ter palavras)

(Queria ter palavras para ti. Palavras que não parecessem fracas. Palavras que te abraçassem. Mas morrem-me na boca, insuficientes. Queria ter palavras. Sabe que tens o meu amor).

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Morrer de amor", de Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(in Poesia Reunida)