segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema de Adília Lopes

Mordiscas-me os lábios
cão pássaro rapaz
(não quero que te vás embora
e sei que vais ter que te ir embora)
quero dormir contigo
com a tua mão
sobre o meu coração
para que saibas
os meus segredos
beliscas-me ao de leve
eu sei que não é um sonho
mas é como um sonho
para mim

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Principio de certidumbre/Princípio de certeza", de José Manuel Díez

Llegaré con los versos, y no harán falta versos.
Llegaré con las rosas, y no harán falta rosas.
Llegaré con la música, y no hará falta música.

Sin embargo sostengo la radiante certeza
de que alguien me espera.

Um día, llegaré.

* * *

Chegarei com os versos, e não farão falta versos.
Chegarei com as rosas, e não farão falta rosas.
Chegarei com a música, e não fará falta música.

No entanto sustento a radiante certeza
de que alguém me espera.

Um dia, chegarei.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 6 de junho de 2010

"La alegría, la ausencia/A alegria, a ausência", de José Manuel Díez

Nunca fue la alegría
mayor que entre tus brazos.
Ni mayor fue la ausencia que sin ellos.

* * *

Nunca foi a alegria
maior que entre os teus braços.
Nem maior a ausência do que sem eles.

(in "Baluerna - Cuadernos del Viajero", n.º 36; trad. Eduardo Fonseca dos Santos)

domingo, 30 de maio de 2010

(Um pouco de prosa)

Os cavalos corriam agora para escapar à nuvem de moscas que cercava o acampamento, zumbindo em frenezi sobre as montanhas de excrementos.
- Ainda o esterco de muitos bravos cavaleiros continua espalhado pela terra - observou Curzio - e já as suas almas se encontram no céu...

Italo Calvino
(O Visconde Cortado ao Meio)

terça-feira, 18 de maio de 2010

(Álbum de fotografias)

(Percorri vezes sem conta as fotografias do nosso álbum. Já não o abria há algum tempo... Seca, entre as páginas, repousava a pétala de uma flor que colhi para te enfeitar os cabelos. Detive-me em cada imagem: naquela em que, sorrindo, olhas o fotógrafo ostentando essa flor, e na outra em que o castelo, as árvores e o relvado, dispostos atrás de ti, não parecem ser reais, mas antes parte de um cenário teatral. Nem o sol, lá fora, nem as tarefas pendentes, cá dentro, conseguiram desviar-me desta colecção de imagens; nas páginas que estão por preencher, parei - o que se segue?).

"Um outro tanto", de Maria Teresa Horta

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

É amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

Perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de tal jeito que desconhecia

Poder amar-te ainda
um outro tanto

(in Poesia Reunida)

terça-feira, 11 de maio de 2010

"Envenena-me", de Maria Teresa Horta

Aperta-me forte
ao coração
Abraça-me depressa sobre as asas

Debruça-te em mim
e porque não?
Envenena-me de ti porque me salvas

(in Poesia Reunida)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

(Queria ter palavras)

(Queria ter palavras para ti. Palavras que não parecessem fracas. Palavras que te abraçassem. Mas morrem-me na boca, insuficientes. Queria ter palavras. Sabe que tens o meu amor).

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Morrer de amor", de Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

(in Poesia Reunida)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Fúrias", de Sophia de Mello Breyner Andresen

(Segundo a mitologia grega, as Fúrias eram três divindades vingadoras que viviam no Inferno, subindo à Terra para perseguir os malvados. Ainda que justas, as Fúrias não atendiam a circunstâncias atenuantes, punindo de forma impiedosa).

Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo

(in Ilhas)

domingo, 25 de abril de 2010

"Os Dias de Verão", de Sophia de Mello Breyner Andresen

(Ansiando pelos dias de Verão)

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

(in Dual

sexta-feira, 23 de abril de 2010

"Arte Poética", de Adília Lopes

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

(in Dobra. Poesia Reunida)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Poema de José Bento

Abre esse livro, lê outra vez o poema
que tantas vezes leste:
como tu, não é o que foi ontem,
o que perdeste há meses.

A letra que gravou a pulsação
que sustenta essa página
pede que a humanes e ressurjas
com teu sangue a palavra.

(in Alguns Motetos)