sábado, 20 de março de 2010

"A andorinha ou Tudo é relativo", de A. M. Pires Cabral

Da andorinha dificilmente se dirá
que é um animal feroz. Pelo contrário,
convém-lhe adjectivos como grácil.

Mas a grácil andorinha abre
para o mosquito uma boca aterradora.

(in Resumo - a poesia em 2009)

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas", de Ana Marques Gastão

Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas
e eu partir não quero, porque esta é a noite
que ilumina o dia, canto do silêncio, eco subtil
no discurso do mundo. Quando pela noite chegas
é meu o teu amor, e a morte tarde doce como mel.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 10 de março de 2010

"Sono de Primavera", de Jorge Sousa Braga

(A Primavera chega no dia vinte e um - ou vinte e dois, depende da perspectiva).

Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

terça-feira, 9 de março de 2010

"Um caranguejo tinha a mania", de Helder Moura Pereira

Um caranguejo tinha a mania
que era escritor. Escreves porquê?
Para pôr um arco de oiro
na minha vida breve. Falava,
como se vê, a linguagem
dos caranguejos. Para passar o tempo
que falta até vir a maré alta, para
proteger do sal as trevas
e combinar as luzes do sol
com as luzes da água, para deixar
gravado no ar o ar apertado
entre duas tenazes, para iluminar
o canto do meu andar viciado.

(in Os Poemas do Coelho Ramon)

domingo, 7 de março de 2010

E ainda outro poema de Maria Ângela Alvim

Estar ser auxílio. Pensa
só estar sem movimento
de amor, de medo, querença.

E ficar, deixando o espaço
de lembrança, alheamento
de mim, entre idéia e passo.

E durar, quase num sonho
de si mesmo descoberto
conter-me no meu tamanho
de ser tudo e ser deserto.

Permanecer - e me oponho
no tempo, domínio incerto.
Espero? Não. Ah!, que estranho
estar sonhando tão perto.

(in Superfície, Toda Poesia)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Outro poema de Maria Ângela Alvim

Esta idéia que pretendo
me afirma, quando me vem,
na mentira de que sendo
serei mais de que ninguém.

Meu ser móbil, despiciendo,
não encontro em mal ou bem,
mas no que fui, sempre sendo,
mais do que sou, sendo alguém.

Assim o tempo me trai
as horas que vou colhendo
em passado subtrai.

Que resta da vida, ao fim,
de extinguir-se me perdendo
na ilusão que há de mim?

(in Superfície, Toda Poesia)

(Um pouco de Música Antiga)


Jordi Savall & Hespèrion XXI interpretando "Pavana & Gallarda", de Inozzenzo Alberti (1535-1615)

terça-feira, 2 de março de 2010

"As casas vieram de noite", de Luiza Neto Jorge

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

(in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância; org. José Fanha e José Jorge Letria)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"Paráfrase", de Pedro Mexia

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Corpos", de José Jorge Frade

Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.

mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.

em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos picos doces
no peito leve.

Quando somos amor
nossos corpos são arcos

(in Efémeros Vestígios)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dois versos de Maria Ângela Alvim

("Um poema podem ser dois versos")

Beijaram-me o rosto asas de borboleta
e se tingiram das cores do ocaso.

(in Superfície, Toda Poesia)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quadra de Maria Ângela Alvim

Os finos dedos do vento
contaram os meus cabelos.
Meu corpo é o violino
nos leves dedos do vento.

(in Superfície, Toda Poesia)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema de Helder Moura Pereira

Triste como a arvore abandonada,
deixada ali numa praça, sem chuva
e sem resguardo, toda mijada
de cães magros e molhados.
Triste é o dia e triste é a tarde
e triste estava, pobre de si, coitado.
Não sabia porquê, eram dias
e tardes inteiras, noites.
Já se sonhara numa coluna
de soldados, já se vira um cobarde
num convento, ladrão - e louco.
Se lhe diziam a verdade fazia-se
mouco. Ou morto, árvore
que teve os seus dias e caiu.

(in Um Raio de Sol)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Poema da oferta e da procura", de José Jorge Frade

(Num interstício do trabalho - que ameaça prolongar-se noite dentro -, a frágil claridade de um poema).

poesia
é inutilidade
imaterialidade pura

preciosa pedra
em todos os mercados perseguida

pontiaguda ou polida,
oferta sempre negada
a cada poeta que a procura

(in Efémeros Verstígios)