terça-feira, 2 de março de 2010

"As casas vieram de noite", de Luiza Neto Jorge

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

(in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância; org. José Fanha e José Jorge Letria)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"Paráfrase", de Pedro Mexia

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Corpos", de José Jorge Frade

Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.

mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.

em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos picos doces
no peito leve.

Quando somos amor
nossos corpos são arcos

(in Efémeros Vestígios)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dois versos de Maria Ângela Alvim

("Um poema podem ser dois versos")

Beijaram-me o rosto asas de borboleta
e se tingiram das cores do ocaso.

(in Superfície, Toda Poesia)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quadra de Maria Ângela Alvim

Os finos dedos do vento
contaram os meus cabelos.
Meu corpo é o violino
nos leves dedos do vento.

(in Superfície, Toda Poesia)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema de Helder Moura Pereira

Triste como a arvore abandonada,
deixada ali numa praça, sem chuva
e sem resguardo, toda mijada
de cães magros e molhados.
Triste é o dia e triste é a tarde
e triste estava, pobre de si, coitado.
Não sabia porquê, eram dias
e tardes inteiras, noites.
Já se sonhara numa coluna
de soldados, já se vira um cobarde
num convento, ladrão - e louco.
Se lhe diziam a verdade fazia-se
mouco. Ou morto, árvore
que teve os seus dias e caiu.

(in Um Raio de Sol)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Poema da oferta e da procura", de José Jorge Frade

(Num interstício do trabalho - que ameaça prolongar-se noite dentro -, a frágil claridade de um poema).

poesia
é inutilidade
imaterialidade pura

preciosa pedra
em todos os mercados perseguida

pontiaguda ou polida,
oferta sempre negada
a cada poeta que a procura

(in Efémeros Verstígios)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

(A little bit blue)


Chet Baker interpretando "Time after time"

"Amor como em casa", de Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo precorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Outro poema de Sandro Penna

Feliz quem é diferente
e é diferente.
Mas ai de quem é diferente
e é igual.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Poema de Sandro Penna

O mar está todo azul.
O mar está todo calmo.
No coração há quase um grito
de alegria. E tudo está calmo.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Máscaras", Gerrit Komrij

O homem com a máscara brincando
Até chegar a hora em que o seu rosto
Partilhava com ela uma só vida:
Já miúdo a história me punha indisposto.

Negava-me a aceitar. Quando crescesse,
Ia mostrar que outra maneira havia:
Que cada máscara, sem dor ou risco,
Como um capuz tirar-se podia.

Fiz disso muito tempo um firme credo.
Escondi, confiante, a minha natureza.
Extinto o fulgor do jogo que eu fazia,
Teria ela a original pureza.

Hoje sou velho, só para admitir:
A história é real. A máscara agarrou-se´.
É como habituares-te ao inferno.
Como se olhar vazia cova fosse.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)

"Poema", de Gerrit Komrij

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

(Adeus tristeza)


Linda Martini interpretando "Adeus tristeza", no Santiago Alquimista, Lisboa (2009)