domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Corpos", de José Jorge Frade

Teu corpo é arco
na ponta dos meus dedos
três leves polpas
na flor da minha mão
com que inflamo a manhã
no teu ventre.

mergulhado
nos teus braços
envolto em lábios,
em perfume.

em beijos,
na água do teu pescoço
brando de rosas
nos picos doces
no peito leve.

Quando somos amor
nossos corpos são arcos

(in Efémeros Vestígios)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dois versos de Maria Ângela Alvim

("Um poema podem ser dois versos")

Beijaram-me o rosto asas de borboleta
e se tingiram das cores do ocaso.

(in Superfície, Toda Poesia)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quadra de Maria Ângela Alvim

Os finos dedos do vento
contaram os meus cabelos.
Meu corpo é o violino
nos leves dedos do vento.

(in Superfície, Toda Poesia)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Poema de Helder Moura Pereira

Triste como a arvore abandonada,
deixada ali numa praça, sem chuva
e sem resguardo, toda mijada
de cães magros e molhados.
Triste é o dia e triste é a tarde
e triste estava, pobre de si, coitado.
Não sabia porquê, eram dias
e tardes inteiras, noites.
Já se sonhara numa coluna
de soldados, já se vira um cobarde
num convento, ladrão - e louco.
Se lhe diziam a verdade fazia-se
mouco. Ou morto, árvore
que teve os seus dias e caiu.

(in Um Raio de Sol)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"Poema da oferta e da procura", de José Jorge Frade

(Num interstício do trabalho - que ameaça prolongar-se noite dentro -, a frágil claridade de um poema).

poesia
é inutilidade
imaterialidade pura

preciosa pedra
em todos os mercados perseguida

pontiaguda ou polida,
oferta sempre negada
a cada poeta que a procura

(in Efémeros Verstígios)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

(A little bit blue)


Chet Baker interpretando "Time after time"

"Amor como em casa", de Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo precorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Outro poema de Sandro Penna

Feliz quem é diferente
e é diferente.
Mas ai de quem é diferente
e é igual.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Poema de Sandro Penna

O mar está todo azul.
O mar está todo calmo.
No coração há quase um grito
de alegria. E tudo está calmo.

(in No Brando Rumor da Vida; trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"Máscaras", Gerrit Komrij

O homem com a máscara brincando
Até chegar a hora em que o seu rosto
Partilhava com ela uma só vida:
Já miúdo a história me punha indisposto.

Negava-me a aceitar. Quando crescesse,
Ia mostrar que outra maneira havia:
Que cada máscara, sem dor ou risco,
Como um capuz tirar-se podia.

Fiz disso muito tempo um firme credo.
Escondi, confiante, a minha natureza.
Extinto o fulgor do jogo que eu fazia,
Teria ela a original pureza.

Hoje sou velho, só para admitir:
A história é real. A máscara agarrou-se´.
É como habituares-te ao inferno.
Como se olhar vazia cova fosse.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)

"Poema", de Gerrit Komrij

O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.

O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos mais de um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.

O nono conta o mesmo por inteiro.
O décimo é, se calha, desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro.
O duodécimo é de nada a conclusão.

(in Contrabando, uma antologia poética; trad. Fernando Venâncio)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

"Convite", de Egito Gonçalves

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores

(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)