segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Ecos", de Ana Luísa Amaral

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

(in Se fosse um intervalo)

(Cada vez mais raras)

(Agora, são cada vez mais raras as palavras. Ficam os gestos, em negativo, na memória - e o que é a memória? Ah, os ecos que me chegam principalmente quando o que sobra do mundo se depositou no fundo do dia... Descubro-te, ó poema.)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Excerto de "To a hand"/"Àquela mão", de Alexandre Search

Give me thy hand. With my wounded eyes
I would see what this hand contains.
Ah, what a world of hopes here lies!
What a world of feelings and doubs and pains!
Oh to think that this hand in itself contains
The mystery of mysteries.

(...)

* * *

Dá-me a tua mão. Com meus olhos feridos
Eu quero ver o que esta mão contém:
Ah, um mundo de esperanças está aqui!
De sentimentos, dúvidas e dores!
Oh, pensar que esta mão possa conter
O mistério dos mistérios em si.

(...)

(in Poesia de Alexandre Search, trad. Luísa Freire)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

"Docemente", de Maria Teresa Horta

Docemente
disponho dos teus braços

dos peixes que navegam
docemente

Docemente
disponho em minha face

a faca dos teus olhos
docemente

Docemente
canso, disponho do cansaço

primeiro do teu afago
docemente

Docemente
afago, a tua boca apago

e vou negando a minha
docemente

(in Poesia Reunida)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

(Mesmo sendo um pouco deslocado...)


"Um problema de arte poética", de Francisco José Viegas

É um destino complicado: ou és poeta ou
preferes o trabalho do romancista.
Ou te entregas ao diálogo, à descrição,
à narração pausada e medida
como um instrumento rigoroso,
ou te deixas tocar pelo silêncio.

(in O Puro e o Impuro)

(Pela tua mão, fui conduzido àquelas quatro prateleiras. De um livro agarrado de forma quase aleatória, seleccionei à pressa estes versos - só para poder afirmar (e com isso sentir um especial contentamento) que, neste dia, o poemapossivel se fez ao teu lado).

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

(Leituras no silencioso limiar da noite)

(...)
Nada é tão veloz talvez como a imobilidade
o máximo de voz é o silêncio
o melhor gesto ainda é o pensamento
e nada há mais eterno que o momento
que a mão que embora fuja fica como uma definição
um sorriso por vezes a mais funda negação do riso
e em muitos gestos a tristeza é como um rio que começa
gestos que intensamente negam a vida que afirmam
e um rosto de inocência e alegria significa malícia ou melancolia
(...)

Ruy Belo
(excerto do poema "Meditação no limiar da noite", in Todos os Poemas, vol. III)

sábado, 5 de setembro de 2009

(Mais longínqua)

(Mais difícil, mais longínqua, a poesia. Ainda assim, parece-me possível. Poucos os livros - bagagem necessária mas pesada, mercadoria ou luxo; o desfolhar das páginas ecoando no excessivo silêncio louco da noite; a consciência das paisagens áridas próximas. Difícil e longínqua. Mas uma voz chegará, de longe, de muito longe, e interromperá - eu sei - a solidão).

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

(O teu dia)

(Sabe que fico com a cabeça leve)

para a AJ

Quando me dá as boas-vindas
De braços bem abertos
Sinto-me como aqueles viajantes que regressam
Das longínquas terras de Punt.

Tudo se muda; o pensamento, os sentidos,
Em perfume rico e estranho.

E quando ela entreabre os lábios para beijar
Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.

(in Poemas de Amor do Antigo Egipto, tradução de Hélder Moura Pereira)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fragmento de poema de Ruy Belo

(...)
Eu amo-te mais do que o mar a areia
e busco-te com mais impaciência
do que a que ele próprio põe quando a procura
e a possui e perde pela maré cheia
(...)

(versos do poema "Ao regressar episodicamente a Espanha, em Agosto de 1534, Garcilaso de La Vega tem conhecimento da morte de Dona Isabel Freire", in Todos os Poemas, vol. III)