terça-feira, 25 de agosto de 2009

"As janelas", de Konstandinos Kavafis

Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

(in Os Poemas)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

"Brinquedos para homens", de Carlos Drummond de Andrade

Embora eu seja adulto,
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma,
pétala.

Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.

(in Amar se aprende amando)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Dois versos de Carlos Drummond de Andrade

à AJ

O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(versos do poema "O mundo é grande", in Amar se aprende amando)

sábado, 1 de agosto de 2009

"O primeiro degrau", de Konstandinos Kavafis

A Teócrito queixava-se
um dia o novo poeta Euménès;
«Há dois anos que escrevo
e apenas fiz um idílio.
É a minha única obra completada.
Ai de mim, é alta vejo,
muito alta a escada da Poesia;
e deste primeiro degrau onde estou
não subirei nunca pobre de mim.»
Disse Teócrito: «Estas palavras
são impróprias e blasfémias.
E se estás no primeiro degrau, deves
ser orgulhoso e feliz assim.
Aqui onde chegaste, não é pouco;
quanto fizeste, grande glória.
Este mesmo primeiro degrau
dista muito das pessoas comuns.
Para pisares este primeiro degrau
tens de ser por direito próprio
cidadão da cidade das ideias.
E é muito difícil nessa cidade
e raro que te naturalizem.
Na sua ágora encontras Legisladores
que não pode burlar nenhum aventureiro.
Aqui onde chegaste, não é pouco,
quanto fizeste, grande glória.»

(in Os Poemas)

sábado, 25 de julho de 2009

"Perda", de Maria Teresa Horta

Não há dor maior
do que aquela de perder-te
nem na cor há mais cor
que nos teus olhos

Nem na cidade
saudade que se invente
que seja mais saudade
que aquela de não ver-te

(in Poesia Reunida)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

"Nós", de Maria Teresa Horta

Se puderes meu amor
dizer
não o escondas

pois esconder é esquecer
na saudade a maneira

que dizer meu amor
do amor
não prolonga

ou demora a distância
que em nós
se encadeia

(in Poesia Reunida)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"Invento", de Maria Teresa Horta

Porque será meu amor
que sempre
na tua ausência tudo se suspende

e o vício de te ver é tanto
que em todo o sítio meu amor
te invento

(in Poesia Reunida)

terça-feira, 14 de julho de 2009

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quadra de Nuno Rocha Morais

Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.

(in Últimos Poemas)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

(Música, outra vez)


Bar Kokhba no Festival de Marciac (2007), interpretando Geverah (Marc Ribot - guitarra; Mark Feldman - violino; Erik Friedlander - violoncelo; Greg Cohen - contrabaixo; Joey Baron - bateria; Cyro Baptista - percussões; John Zorn - compositor e maestro)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Três versos de Ruy Belo

(...)
O duche de água fria lava em mim a poesia
e sabe-me a sabão se sabe a alguma coisa
coisa tão suja como o é a poesia
(...)

(versos de "Meditação Anciã", in Todos os Poemas, vol. III)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Poema de Nuno Rocha Morais

Ao teu lado, mudo.
Suponho que pousei a mão
No teu ombro, não sei,
Ausentes ambos,
Tu do ombro, eu da mão.
Lá fora, não muito longe
Do vidro, a manhã passa
E é calma, tristeza, fim.

(in Últimos Poemas)

sábado, 4 de julho de 2009

(Bis)


Esbjörn Svensson Trio interpretando "When God Created The Coffee Break", ao vivo no Leverkuzener Jazzstage (2005)