sexta-feira, 3 de julho de 2009

"Como aves, cuja passagem", de Nuno Júdice

Como sombras passaram entre nós,
como sombras. Uma vez perante alguns amigos
e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei
os seus nomes. Mas o que então correspondia
a um acto heróico, nada significa
hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos.
Só se eu próprio
me tornar uma sombra, e também eu passar
a uma outra vida. Durante algum tempo
alguém falará de mim dizendo «conheci-o»,
ou «há tanto tempo, falei com ele». Mas
em breve outros se tornarão sombras,
e depois outros, até que o meu gesto
se confunda com esses, e todos por fim
se dissipem na obscuridade do tempo
passado.

(in Poesia Reunida, 1967-2000)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Excerto do poema "Louvor da Dúvida", de Bertold Brecht

(...)
Rodeado de berros de comando, examinado
Na sua capacidade por médicos barbudos, inspeccionado
Por entes radiosos com distintivos áureos, admoestado
Por solenes sacerdotes que lhe dão nas orelhas com um livro escrito [pelo próprio Deus,
Ensinado
Por mestres-escolas impacientes, o pobre fica a ouvir
Que o mundo é o melhor dos mundos e que o buraco
No tecto do seu quarto foi planeado pelo próprio Deus.
Na verdade, é-lhe muito difícil
Duvidar deste mundo.
(...)

(in Poemas; trad. Paulo Quintela)

(Ondas)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um último poema de «Arte de Bem Morrer», de Casimiro de Brito

Levantei-me de madrugada.
Reguei a buganvília.
O mundo já não é o que era.

(in Arte de Bem Morrer)

"Ícaro", de Miguel Torga

O sol dos sonhos derreteu-lhe as asas
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida.
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida...

Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede, impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.

(in Poesia Completa, vol. II)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um poema de Casimiro de Brito, que versa o morrer de amor e desamor

Esta manhã não lavei os olhos -
pensei em ti.

*

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

*

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

*

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.

(in Arte de Bem Morrer)

terça-feira, 23 de junho de 2009

(Em escuta)


Masada Sextet, no Festival de Marciac (2008), interpretando "Haamiah"
(John Zorn - saxofone; Dave Douglas -trompete; Uri Caine - piano; Greg Cohen - contrabaixo; Joey Baron - bateria; Cyro Baptista - percussão)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Hoje, apenas um verso


No teu abraço não tenho pressas

(verso do poema "Tela", in Pela Geografia do Prazer)

domingo, 21 de junho de 2009

"Quem é o teu inimigo?", de Bertold Brecht

Ao faminto, que te tirou
O último pão, olha-lo como inimigo.
Mas ao ladrão que nunca passou fome
Não lhe saltas às goelas.

(in Poemas; trad. Paulo Quintela)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Quando o crime vem como a chuva cai", de Bertold Brecht

Como alguém que chega com uma carta importante ao ghichet depois das horas regulamentares: o ghichet já está fechado.
Como alguém que quer advertir a cidade duma inundação: mas fala uma outra língua. Não o compreendem.
Como um mendigo que pela quinta vez bate a uma porta onde já recebeu esmola quatro vezes: ele tem fome pela quinta vez.
Como alguém cujo sangue lhe corre duma ferida e espera pelo médico: o sangue continua a correr.

Assim vimos nós e relatamos que em nós se cometem crimes.

Quando se relatou pela primeira vez que os nossos amigos era abatidos pouco a pouco, houve um grito de horror. Então foram abatidos cem. Mas quando foram abatidos mil e a matança não tinha fim, espalhou-se o silêncio.

Quando o crime vem como a chuva cai, então já ninguém grita: alto!

Quando os delitos se amontoam, tornam-se invisíveis.
Quando as dores se tornam insuportáveis, já se não ouvem os gritos.
Também os gritos caem como a chuva de Verão.

1935

(in Poemas; trad. Paulo Quintela)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cegas, as palavras, para Casimiro de Brito

Cegas são as palavras embora
seu vagaroso ruído ilumine
a sombra do barro que no corpo
arrefece. Sílabas difusas
do rouco encantamento
onde me confundo como se outro
coração mais fundo não houvesse.

(in Arte de Bem Morrer)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Finalizado o livro «Ou o Poema Contínuo», após muitos meses de leitura(s)

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)

sábado, 13 de junho de 2009

Mais alguns versos de Herberto Helder

Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

(Lendo «Ou o Poema Contínuo»)


Glenn Gould interpretando a Sarabanda da Partita n.º 4 (BWV 828), de Johann Sebastian Bach