domingo, 21 de junho de 2009

"Quem é o teu inimigo?", de Bertold Brecht

Ao faminto, que te tirou
O último pão, olha-lo como inimigo.
Mas ao ladrão que nunca passou fome
Não lhe saltas às goelas.

(in Poemas; trad. Paulo Quintela)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Quando o crime vem como a chuva cai", de Bertold Brecht

Como alguém que chega com uma carta importante ao ghichet depois das horas regulamentares: o ghichet já está fechado.
Como alguém que quer advertir a cidade duma inundação: mas fala uma outra língua. Não o compreendem.
Como um mendigo que pela quinta vez bate a uma porta onde já recebeu esmola quatro vezes: ele tem fome pela quinta vez.
Como alguém cujo sangue lhe corre duma ferida e espera pelo médico: o sangue continua a correr.

Assim vimos nós e relatamos que em nós se cometem crimes.

Quando se relatou pela primeira vez que os nossos amigos era abatidos pouco a pouco, houve um grito de horror. Então foram abatidos cem. Mas quando foram abatidos mil e a matança não tinha fim, espalhou-se o silêncio.

Quando o crime vem como a chuva cai, então já ninguém grita: alto!

Quando os delitos se amontoam, tornam-se invisíveis.
Quando as dores se tornam insuportáveis, já se não ouvem os gritos.
Também os gritos caem como a chuva de Verão.

1935

(in Poemas; trad. Paulo Quintela)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cegas, as palavras, para Casimiro de Brito

Cegas são as palavras embora
seu vagaroso ruído ilumine
a sombra do barro que no corpo
arrefece. Sílabas difusas
do rouco encantamento
onde me confundo como se outro
coração mais fundo não houvesse.

(in Arte de Bem Morrer)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Finalizado o livro «Ou o Poema Contínuo», após muitos meses de leitura(s)

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)

sábado, 13 de junho de 2009

Mais alguns versos de Herberto Helder

Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

(Lendo «Ou o Poema Contínuo»)


Glenn Gould interpretando a Sarabanda da Partita n.º 4 (BWV 828), de Johann Sebastian Bach

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Rendição", de Daniel Medina

Caem armaduras e espadas
E rendo-me sem condições
Quando imagino o teu regresso
E o nosso velho abraço.

(in Pela Geografia do Prazer)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

"Retrato", de Miguel Torga

Tens nos olhos a luz que me faltava.
Agora posso ver o que não via:
O rosto da alegria
No teu rosto.
Vinho ainda a sonhar
Na fervura do mosto,
Não sabes duvidar
Das ilusões.
És a vida que esperas...
Em ti, as estações
São todas primaveras.

(in Poesia Completa, vol. II)

"Espera", de Miguel Torga


E a expedição partiu.
Partiu, e o coração da mãe parou.
E parado de angústia assim viveu
Enquanto a caravela não voltou.

(in Poesia Completa, vol. II)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"O meu espectador", de Bertold Brecht

Outro dia encontrei o meu espectador.
Na rua poeirenta
Segurava nos punhos uma broca mecânica.
Por um segundo
Levantou os olhos. Armei num repente o meu teatro
Entre as casas. Ele
Olhou cheio de expectativa.
Na taberna
Encontrei-o de novo. Estava junto ao balcão.
Coberto de suor, bebia, na mão
Um pedaço de pão. Armei num repente o meu teatro. Ele
Olhou admirado.
Hoje
Consegui-o de novo. Diante da estação
Vi-o, empurrado por coronhas de espingardas
Para a guerra entre rufos de tambores.
No meio da turba
Armei o meu teatro. Por sobre o ombro
Lançou-me um olhar:
Fez-me um aceno.

(in Poemas; trad. de Paulo Quintela)

Excerto de "Fala a operários-actores dinamarqueses sobre a arte da observação", de Bertold Brecht

(...)
Para observar
É preciso aprender a comparar. Para comparar
É preciso ter já observado. Pela observação
Produz-se um saber, mas é necessário o saber
Para a observação. E:
Observa mal aquele que nada sabe empreender
Com o observado. Com olhar mais agudo
O pomareiro abrange a macieira do que o passeante.
Mas não vê exactamente o homem quem não saiba
Que o homem é o destino do homem.
(...)

(in Poemas; trad. de Paulo Quintela)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Poema de Herberto Helder

Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.

(in Ou o Poema Contínuo; "Última Ciência", 4)