Glenn Gould interpretando a Sarabanda da Partita n.º 4 (BWV 828), de Johann Sebastian Bach
quarta-feira, 10 de junho de 2009
(Lendo «Ou o Poema Contínuo»)
Glenn Gould interpretando a Sarabanda da Partita n.º 4 (BWV 828), de Johann Sebastian Bach
terça-feira, 9 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
"Rendição", de Daniel Medina
Caem armaduras e espadas
E rendo-me sem condições
Quando imagino o teu regresso
E o nosso velho abraço.
E rendo-me sem condições
Quando imagino o teu regresso
E o nosso velho abraço.
(in Pela Geografia do Prazer)
quinta-feira, 4 de junho de 2009
"Retrato", de Miguel Torga
Tens nos olhos a luz que me faltava.
Agora posso ver o que não via:
O rosto da alegria
No teu rosto.
Vinho ainda a sonhar
Na fervura do mosto,
Não sabes duvidar
Das ilusões.
És a vida que esperas...
Em ti, as estações
São todas primaveras.
Agora posso ver o que não via:
O rosto da alegria
No teu rosto.
Vinho ainda a sonhar
Na fervura do mosto,
Não sabes duvidar
Das ilusões.
És a vida que esperas...
Em ti, as estações
São todas primaveras.
(in Poesia Completa, vol. II)
"Espera", de Miguel Torga

E a expedição partiu.
Partiu, e o coração da mãe parou.
E parado de angústia assim viveu
Enquanto a caravela não voltou.
(in Poesia Completa, vol. II)
quarta-feira, 3 de junho de 2009
"O meu espectador", de Bertold Brecht
Outro dia encontrei o meu espectador.
Na rua poeirenta
Segurava nos punhos uma broca mecânica.
Por um segundo
Levantou os olhos. Armei num repente o meu teatro
Entre as casas. Ele
Olhou cheio de expectativa.
Na taberna
Encontrei-o de novo. Estava junto ao balcão.
Coberto de suor, bebia, na mão
Um pedaço de pão. Armei num repente o meu teatro. Ele
Olhou admirado.
Hoje
Consegui-o de novo. Diante da estação
Vi-o, empurrado por coronhas de espingardas
Para a guerra entre rufos de tambores.
No meio da turba
Armei o meu teatro. Por sobre o ombro
Lançou-me um olhar:
Fez-me um aceno.
Na rua poeirenta
Segurava nos punhos uma broca mecânica.
Por um segundo
Levantou os olhos. Armei num repente o meu teatro
Entre as casas. Ele
Olhou cheio de expectativa.
Na taberna
Encontrei-o de novo. Estava junto ao balcão.
Coberto de suor, bebia, na mão
Um pedaço de pão. Armei num repente o meu teatro. Ele
Olhou admirado.
Hoje
Consegui-o de novo. Diante da estação
Vi-o, empurrado por coronhas de espingardas
Para a guerra entre rufos de tambores.
No meio da turba
Armei o meu teatro. Por sobre o ombro
Lançou-me um olhar:
Fez-me um aceno.
(in Poemas; trad. de Paulo Quintela)
Excerto de "Fala a operários-actores dinamarqueses sobre a arte da observação", de Bertold Brecht
(...)
Para observar
É preciso aprender a comparar. Para comparar
É preciso ter já observado. Pela observação
Produz-se um saber, mas é necessário o saber
Para a observação. E:
Observa mal aquele que nada sabe empreender
Com o observado. Com olhar mais agudo
O pomareiro abrange a macieira do que o passeante.
Mas não vê exactamente o homem quem não saiba
Que o homem é o destino do homem.
(...)
Para observar
É preciso aprender a comparar. Para comparar
É preciso ter já observado. Pela observação
Produz-se um saber, mas é necessário o saber
Para a observação. E:
Observa mal aquele que nada sabe empreender
Com o observado. Com olhar mais agudo
O pomareiro abrange a macieira do que o passeante.
Mas não vê exactamente o homem quem não saiba
Que o homem é o destino do homem.
(...)
(in Poemas; trad. de Paulo Quintela)
sexta-feira, 29 de maio de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Poema de Herberto Helder
Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer.
A boca fica em chaga.
(in Ou o Poema Contínuo; "Última Ciência", 4)
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Versos de Casimiro de Brito
Contaminado pelo barro da vida
que já se afasta, corrompida,
basta-me este canto rouco. Anunciador
da madrugada? Mas onde estou eu, sem chão
nem jangada? Comido pela boca nocturna
só me restam umas sílabas escuras.
Com elas não sei o que fazer. A arte
da queda? Deixa acontecer.
que já se afasta, corrompida,
basta-me este canto rouco. Anunciador
da madrugada? Mas onde estou eu, sem chão
nem jangada? Comido pela boca nocturna
só me restam umas sílabas escuras.
Com elas não sei o que fazer. A arte
da queda? Deixa acontecer.
(in Arte de Bem Morrer)
terça-feira, 26 de maio de 2009
"Uma emergência de outono", de João Luís Barreto Guimarães
As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar em casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso com
cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar em casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso com
cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).
(in A Parte pelo Todo)
sexta-feira, 22 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Casimiro de Brito sentado numa rocha
Sentado nesta rocha e quase
tão paciente como ela
pergunto-me se os nossos pensamentos
serão diferentes. É certo que tenho ouvidos
e ela não, olfacto
e ela não - mas que sei eu das suas
sensações? Que direi do pó incansável
que em mim canta e balança e se afasta
para outro lugar? Saberá ela
que sou um homem quase acabado? Eu,
o que sei dela? Há um sol
que se levanta e vagas e brisas salgadas
que se transformam em espuma -
há uma sombra num país distante
que a todos espera - é o que temos
em comum. Inclino-me sob o vento para defender
a minha natureza. Ela também. A rocha
saberá o calendário?
tão paciente como ela
pergunto-me se os nossos pensamentos
serão diferentes. É certo que tenho ouvidos
e ela não, olfacto
e ela não - mas que sei eu das suas
sensações? Que direi do pó incansável
que em mim canta e balança e se afasta
para outro lugar? Saberá ela
que sou um homem quase acabado? Eu,
o que sei dela? Há um sol
que se levanta e vagas e brisas salgadas
que se transformam em espuma -
há uma sombra num país distante
que a todos espera - é o que temos
em comum. Inclino-me sob o vento para defender
a minha natureza. Ela também. A rocha
saberá o calendário?
(in Arte de Bem Morrer)
terça-feira, 19 de maio de 2009
(A folha arrancada de um livro)
(A folha arrancada de um livro - de um manual (universitário?) de biologia? Sublinhados a esferográfica verde, no corpo do texto, e anotações (minúsculas) feitas com um lápis muito afiado, pelas margens exteriores e por todos os espaços (mesmo os mais pequenos) em branco. Detenho-me numa palavra, como se a reconhecesse ou fosse capaz de decifrar a difícil caligrafia; começa com um "C" bem desenhado - será "Camões"?).
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