quarta-feira, 27 de maio de 2009

Versos de Casimiro de Brito

Contaminado pelo barro da vida
que já se afasta, corrompida,
basta-me este canto rouco. Anunciador
da madrugada? Mas onde estou eu, sem chão
nem jangada? Comido pela boca nocturna
só me restam umas sílabas escuras.
Com elas não sei o que fazer. A arte
da queda? Deixa acontecer.

(in Arte de Bem Morrer)

terça-feira, 26 de maio de 2009

"Uma emergência de outono", de João Luís Barreto Guimarães

As cores da maçã assada aberta
pelo fim do verão antecipam no palato
uma emergência de outono.
Convida a ficar em casa
esta maçã que feri e salpiquei pelo torso com
cézannes de canela.
Sob a epiderme tisnada (cor
amarelo-pecado) é
perene o seu sabor. Vê só
como jazem nuas
suas vestes pelo prato
(qual roupa de rapariga desbragada
pelo chão).

(in A Parte pelo Todo)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Casimiro de Brito sentado numa rocha

Sentado nesta rocha e quase
tão paciente como ela
pergunto-me se os nossos pensamentos
serão diferentes. É certo que tenho ouvidos
e ela não, olfacto
e ela não - mas que sei eu das suas
sensações? Que direi do pó incansável
que em mim canta e balança e se afasta
para outro lugar? Saberá ela
que sou um homem quase acabado? Eu,
o que sei dela? Há um sol
que se levanta e vagas e brisas salgadas
que se transformam em espuma -
há uma sombra num país distante
que a todos espera - é o que temos
em comum. Inclino-me sob o vento para defender
a minha natureza. Ela também. A rocha
saberá o calendário?

(in Arte de Bem Morrer)

terça-feira, 19 de maio de 2009

(A folha arrancada de um livro)

(A folha arrancada de um livro - de um manual (universitário?) de biologia? Sublinhados a esferográfica verde, no corpo do texto, e anotações (minúsculas) feitas com um lápis muito afiado, pelas margens exteriores e por todos os espaços (mesmo os mais pequenos) em branco. Detenho-me numa palavra, como se a reconhecesse ou fosse capaz de decifrar a difícil caligrafia; começa com um "C" bem desenhado - será "Camões"?).

(Uma moedinha, amigo?)

(Uma moedinha, amigo? Desculpa, não tenho trocados (só ar, ar, e mais ar no fundo dos bolsos). Talvez dois versos? «Aprendo a conhecer o meu tamanho / Pela maneira como perco ou ganho.» Aceite, são do Miguel Torga. Deixe estar, amigo, fica-me a dever; não consigo comprar cigarros com isso).

(Não há um poema?)

(Não há um poema? Nem ao menos um verso? Honestamente, não sei o que resta no fundo dos bolsos - talvez só uns trocados de ar... Ah!, como és lírico se pensas que te podes alimentar só de ar! Agasalha-te assim e amanhã não respirarás! O poema, ou somente o verso, mesmo sem ser visto, dançava, dançava...).

quinta-feira, 14 de maio de 2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

"O Rei de Ítaca", de Sophia de Mello Breyner Andresen

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado

(in O Nome das Coisas)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Furto", de Miguel Torga


Saboreio este dia,
Fruto roubado no pomar do tempo.
Sabe-me a novidade,
Deixa-me os lábios doces.
Tem a polpa de sol, e dentro dele
Calmas sementes doutro sol futuro.
Cheira a terra lavrada e a maresia.
E tão livre e maduro,
Que quando o apanhei já ele caía.

(in Poesia Completa, vol. II)

domingo, 3 de maio de 2009

"Regressarei", de Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

(in O Nome das Coisas)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

"Liberdade", de Sophia de Mello Breyner Andresen

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

(in O Nome das Coisas)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

E agora um excerto de "A Margem da Alegria", de Ruy Belo...

(...)
Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas árvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te
ver-te é sentir pousar mais que um olhar
uma mão muito calma sobre a minha vida
ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo
que sempre existirei que não há mais ninguém
ver o teu rosto é mesmo mais do que nascer
empreender viagens começadas nesse rosto
donde podem sair inúmeros navios
ver o teu rosto é como tudo começar
corrida a minudenciosa prega do silêncio
silêncio alto como um cerro inesperado como um curro
aéreo como um cirro denso como um cerro
prosaico às vezes como a mecânica de um carro
(...)

(excerto de A Margem da Alegria, in Todos os Poemas, vol. II)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Excerto suculento de Al Berto

(...)
a queda da laranja provocará o poema?
a laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
e um louco, saberá o que é uma laranja?
e se a laranja cair? e o poema? e o poema com uma laranja a cair?
e o poema em forma de laranja?
e se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? a ficar louco?
e a palavra laranja existirá sem a laranja?
e a laranja voará sem a palavra laranja?
(...)

(versos de "Prefácio para um livro de poemas", in O Medo)