domingo, 5 de abril de 2009

"There is no poetry when you live there", de Malcolm Lowry

There is no poetry when you live there.
Those stones are yours, those noises are your mind,
The forging thunderous trams and streets that bind
You to the dreamed-of bar where sits despair
Are trams and streets: poetry is otherwhere.
The cinema fronts and shops once left behind
And mourned, are mourned no more. Strangely unkind
Seem all new landmarks of the now and here.

But move you toward New Zealand or the Pole,
Those stones will blossom and the noises sing,
And trams will wheedle to the sleeping child
That never rests, whose ship will always roll,
That never can come home, but yet must bring
Strange trophies back to Ilium, and wild!

(in As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar)

terça-feira, 31 de março de 2009

"Noite de Primavera", de Zhang Kejiu

No pátio do baloiço uma lua pálida raras estrelas
uma nuvem melancólica, a tristeza da chuva no rosto dum hibisco
a andorinha aflita, atei à sua pata um fio de seda vermelha
uma sombra desesperada no espelho de bronze, o leque redondo [abandonado
do fogão com boca de animal evola-se o fumo da madeira de sândalo
na baía de esmeralda restos de flores
uma a uma, anotei estas coisas no florilégio dos meus pensamentos [amorosos

(in Cinquenta "Xiaoling"; trad. Albano Martins)

sexta-feira, 27 de março de 2009

(Dia Mundial do Teatro - um fragmento de Shakespeare)

Julieta:
Dei-te o meu voto antes que mo pedisses.
Mas ai, quem me dera que o pudesse voltar a dar.

Romeu:
Eras capaz de retirá-lo? Com que propósito, amor?

Julieta:
Para ser generosa, e poder dar-to mais uma vez.

(in Romeu e Julieta)

"Duas lições", de João Melo

I

Todos os materiais servem ao poeta:
o som de um tambor,
a angústia de uma mulher nua,
a lembrança de uma utopia.

A vida deposita, diariamente,
no altar profano da poesia,
a sua dádiva generosa:
estrelas e detritos.

E tudo a poesia sacrifica.

II

Para amar um poema,
é preciso ter coração e
sangue nas veias.

E que o poema seja uma carícia
ou um soco na boca do estômago.

(in Auto-Retrato)

quarta-feira, 25 de março de 2009

"Para vivenciar nadas", de Ondjaki

borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

(in Há Prendisajens com o Xão)

terça-feira, 24 de março de 2009

"Para pisar um chão com estrelas", de Ondjaki

(De novo, um poema com estrelas. Pura coincidência. O anterior, de Pessoa, repousava no meu caderno há pelo menos dois meses - reli-o, quase por acaso, e reencontrei-me com a sua beleza; o que agora se publica, resulta de uma leitura feita minutos antes de partir do lugar - deste xão - onde me encontro... mas não para pisar um chão com estrelas).

imitando-me ao morcego
intimidei o dia a ser mais vertical.
assim o céu ganhou pés
a terra experimentou alturas.
apressas, pedi:
uma noite se antecipasse.
transfigurando conceitos
o palco do mundo vincava-se
de novas encenações.
estrelas chegaram.
lua teve dúvidas para posicionar-se.
encaminhando
andei sobre o céu sob meus pés.
assim revelei-me:
nunca é impossível
pisar um chão de estrelas.
...
logo-logo:
um grilo atirou-se a sorrisos.

(in Há Prendisajens com o Xão)

Uns quantos versos de Pessoa

São velhas as estrelas, e elas são
Grandes. Velho e pequeno é o coração,
E contém mais do que as estrelas todas,
Sendo, sem espaço, mais que a imensidão.

(in Poesia 1934-1935 e não datada)

sábado, 21 de março de 2009

Comemorar o Dia Mundial da Poesia... com um poema de Eucanaã Ferraz


O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda a palavra é defeito.

(in Desassombro)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Outra quadra de Umar-i Khayyām

Quando deitarmos o último suspiro,
Colocarão tijolos na campa das nossas cinzas.
Das nossas cinzas moldarão tijolos
Para cobrir as campas daqueles que virão depois.

(in Rubā'Iyat)

terça-feira, 17 de março de 2009

"O poema", de José Tolentino Mendonça

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

(in A Noite Abre Meus Olhos)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Quadra do poeta persa Umar-i Khayyām

Uma taça do vinho novo é sempre desejada,
Os sons da flauta suaves ouviria sem cansaço.
Quando o oleiro transformar as minhas cinzas numa jarra
Que esteja sempre cheia com o vinho!

(in Rubā'Iyat)

Ainda um poema do «Livro das Quedas», de Casimiro de Brito

Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

(in Livro das Quedas)