sexta-feira, 27 de março de 2009

"Duas lições", de João Melo

I

Todos os materiais servem ao poeta:
o som de um tambor,
a angústia de uma mulher nua,
a lembrança de uma utopia.

A vida deposita, diariamente,
no altar profano da poesia,
a sua dádiva generosa:
estrelas e detritos.

E tudo a poesia sacrifica.

II

Para amar um poema,
é preciso ter coração e
sangue nas veias.

E que o poema seja uma carícia
ou um soco na boca do estômago.

(in Auto-Retrato)

quarta-feira, 25 de março de 2009

"Para vivenciar nadas", de Ondjaki

borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen.
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
descola por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondência directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arcos íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas ela usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.

(in Há Prendisajens com o Xão)

terça-feira, 24 de março de 2009

"Para pisar um chão com estrelas", de Ondjaki

(De novo, um poema com estrelas. Pura coincidência. O anterior, de Pessoa, repousava no meu caderno há pelo menos dois meses - reli-o, quase por acaso, e reencontrei-me com a sua beleza; o que agora se publica, resulta de uma leitura feita minutos antes de partir do lugar - deste xão - onde me encontro... mas não para pisar um chão com estrelas).

imitando-me ao morcego
intimidei o dia a ser mais vertical.
assim o céu ganhou pés
a terra experimentou alturas.
apressas, pedi:
uma noite se antecipasse.
transfigurando conceitos
o palco do mundo vincava-se
de novas encenações.
estrelas chegaram.
lua teve dúvidas para posicionar-se.
encaminhando
andei sobre o céu sob meus pés.
assim revelei-me:
nunca é impossível
pisar um chão de estrelas.
...
logo-logo:
um grilo atirou-se a sorrisos.

(in Há Prendisajens com o Xão)

Uns quantos versos de Pessoa

São velhas as estrelas, e elas são
Grandes. Velho e pequeno é o coração,
E contém mais do que as estrelas todas,
Sendo, sem espaço, mais que a imensidão.

(in Poesia 1934-1935 e não datada)

sábado, 21 de março de 2009

Comemorar o Dia Mundial da Poesia... com um poema de Eucanaã Ferraz


O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda a palavra é defeito.

(in Desassombro)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Outra quadra de Umar-i Khayyām

Quando deitarmos o último suspiro,
Colocarão tijolos na campa das nossas cinzas.
Das nossas cinzas moldarão tijolos
Para cobrir as campas daqueles que virão depois.

(in Rubā'Iyat)

terça-feira, 17 de março de 2009

"O poema", de José Tolentino Mendonça

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

(in A Noite Abre Meus Olhos)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Quadra do poeta persa Umar-i Khayyām

Uma taça do vinho novo é sempre desejada,
Os sons da flauta suaves ouviria sem cansaço.
Quando o oleiro transformar as minhas cinzas numa jarra
Que esteja sempre cheia com o vinho!

(in Rubā'Iyat)

Ainda um poema do «Livro das Quedas», de Casimiro de Brito

Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

(in Livro das Quedas)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Os dois primeiros versos de um poema de Casimiro de Brito

Se dizem que parti, não é verdade;
se dizem que se morre, acabo de chegar.
(...)

(in Livro das Quedas)

"A estrada branca", de José Tolentino Mendonça

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

(in A Noite Abre Meus Olhos)

terça-feira, 10 de março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mais versos de Casimiro de Brito

(Hoje que faz sol, deliciou-me este poema de chuva... Reparo agora que o poema publicado anteriormente, há poucas horas apenas, também fala de chuva...).

A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração.

(in Livro das Quedas)