segunda-feira, 9 de março de 2009

Versos de Gérard de Cortanze

E se a chuva existisse
apenas no olhar
que tu me diriges?
A água, assim, viria
da alma. Mas o olhar
provém da chuva. Porque
sem a chuva - sem a consciência
dela, através dos olhos -,
o olhar não existe.
Assim, o olhar detém
um pouco de chuva,
na sua água: as
lágrimas - talvez?
Ou o mar. Ou a terra
quando a chuva a
devolve húmida ao olhar.

(in O Movimento das Coisas, trad. Isabel Aguiar Barcelos)

domingo, 8 de março de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

"Velharias", de Nuno Júdice

Às vezes, eu subia as escadas para o sótão; e
parava sempre nas caixas que iam ocupando
os degraus, para ver o que tinham lá dentro.
Por entre rendas de bilros, velhas canetas,
discos de 75 rotações, caixas de costura,
havia também postais e cartas, assinadas
por gente de que nunca ouvira falar, com
mensagens banais, de parabéns por esque-
cidos aniversários, ou anunciando idas
para férias num tempo de termas e
casinos. Do meio dessas cartas, por vezes,
também caíam nós de cabelos ou
palavras mais ternas. Os diminutivos
substituíam os nomes; e formas de trata-
mento que deviam ter ficado guardadas
nos ouvidos de quem se ama ouviam-se,
de súbito, como se o tempo não tivesse
passado, sepultando num fundo de memória
quem assim escreveu. Então, procurava ler
nas entrelinhas; e tocava a caligrafia perfeita
com que a carta começava, sentindo a
aspereza da tinta, até chegar a meio da
página onde a letra se fazia trémula, e o desejo
saltava de dentro do papel. Quando fechava
a caixa, com os seus segredos arrumados,
já não subia o resto das escadas: que sombras
me esperavam naquele sótão? Que mãos
gastas pela solidão me iriam puxar para
cima, de onde quem entrou não volta a descer?

(in Geometria Variável)

segunda-feira, 2 de março de 2009

(O pó do poema)

(Transcrevo um poema: despendo, a meio do dia, cerca de vinte minutos nessa tarefa inútil. Cada verso, ou palavra, ou sílaba, ou letra, pouco mais significam que pequenas partículas de tempo - intangível pó que fixo em páginas levemente amarelas com a minha letra. O buzinar dos automóveis é o ponto final do que transcrevo; pergunto-me: em que tarefas, seguramente mais úteis, despendem os apressados condutores o pó das suas vidas?).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Pedro, lembrando Inês", de Nuno Júdice

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

(in Pedro, lembrando Inês)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

(Guerra ou paz)

Fotografia de Sofia L.

(A Guerra Civil, de acordo com certos olhos, não aparece retratada apenas no Guernica, mas também nos jardins do Museu do Prado).

"Zoologia: o rouxinol", de Nuno Júdice

Um rouxinol ocupa o centro da tua cabeça,
como se estivesse numa gaiola. Podia sair
pelos teus olhos, e voar de roda dos teus
cabelos, num movimento de carrossel. Podias
apanhá-lo com as mãos, e tocar as suas
asas, como se fossem um teclado, fazendo
ouvir a música do céu. Mas o rouxinol
não sai. Prefere que eu espreite para o
fundo dos teus olhos e o descubra, no
centro da tua cabeça, onde o guardas,
para que só eu possa ouvir o seu canto,
e imaginar as voltas que ele daria pelos
teus cabelos, se saísse de dentro de ti, e
me fizesse ouvir a música do céu quando
o prendesses com as mãos, para me dares
esse pássaro que não te quer deixar.

(in A Matéria do Poema)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

(Muitas figuras)

Fotografia da obra Many Times (1999), de Juan Muñoz, da exposição "Juan Muñoz. Um retrospectiva", patente no Museu de Arte Contemporânea da Fundação Serralves

"Revelação", de José Tolentino Mendonça

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

(in A Noite Abre Meus Olhos)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

"Para escrever o poema", de Nuno Júdice

O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.

(in A Matéria do Poema)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Novo poema do "Livro das Quedas", de Casimiro de Brito

Sentado na sua casa branca
onde não acontece nada
um homem pergunta ao sol:
Se a morte não existe,
se tudo é canto e glória,
se no sal repousa a vertigem,
onde se acumula o pó?

(in Livro das Quedas)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Versos de Casimiro de Brito

O ardor que transmito
ao limão da palavra
inebria-me, vou
continuar, vou devolver às palavras
algum som algum sal embora saiba
que esta vertigem
é precária. Posso defender-me
(de quê?) dizendo
que só o precário merece
um pouco de exaltação. Talvez ande
por aqui
algum sangue, algum indício
de respiração.

(in Livro das Quedas)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

(Dias sem poesia)


Adagietto (4º andamento), da Sinfonia n.º 5, de Gustav Mahler, interpretado pela Orquestra Filarmónica de Israel, sob a condução de Zubin Mehta (Teatro Municipal de Santiago de Chile, 2001)