segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"Descrição de uma cidade", de Gonçalo M. Tavares

Não há lado esquerdo na metafísica,
O que não é uma limitação.
A produção industrial de problemas
Solta para o ar nuvens espessas
Que interferem no aeródromo.
Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo
Porque, entre os vários desenhos, os miúdos
Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito
Pesa mais que a existência concreta de um
Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre
O Nada e a montanha. Entretanto, a
Natação tornou-se importante para a cidade
Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo
Oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais
Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também
As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos
Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.
O mundo é perfeito de todos os lados,
Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico
Belo que cai em cheio na cabeça desprevenida.
O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem
Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera,
As palavras que usas não são inertes. O inglês, por exemplo,
É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês
Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente
As aves baixas.
No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões,
Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações
Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por
Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,
Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque
A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.

(in 1)

(Café, não...)

(... carioca de limão...)

domingo, 11 de janeiro de 2009

"Bucólica", de Miguel Torga

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

(in Poesia Completa, vol. I)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

(Escassas leituras)

(Pouca poesia tem sido lida nos últimos dias pelo autor destas linhas. Há nesta afirmação, e na consciência do que ela significa, um certo remorso: os livros continuam, dia após dia, na mesma posição; os marcadores, pequenos pedaços de papel quase sempre rabiscados, na mesma página. O leitor anda ausente, ainda que novos livros apareçam sobre os velhos - mas aí ficam dias, sem que ninguém se interesse pelos seus segredos...)

domingo, 4 de janeiro de 2009

"As árvores e os livros", de Jorge Sousa Braga

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

(in Herbário)

(Os primeiros versos que se publicam neste novo ano provêm de um livro de poesia para crianças. São os versos que hoje me apetecem).

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Chaucer", de Ted Hughes

«Quando Abril com suaves aguaceiros
sacia a sede de Março até às raízes...»
Com a tua voz no seu tom mais elevado, balançando no cimo de um [escadote,
braços erguidos - para te equilibrares e
segurares as rédeas da esforçada atenção
daquela tua audiência imaginária - declamaste Chaucer
para um campo com vacas. E o céu da Primavera fez o resto,
com a roupa lavada a esvoaçar, o verde-esmeralda
dos espinheiros, o espinheiro branco, o espinheiro negro,
tu com um daqueles copos de champanhe
a que tinhas deitado a mão na arrebatação do momento.
A tua voz voou pelos campos até Grantchester.
Deve ter soado a perdida. Mas as vacas
olharam, e aproximaram-se logo: elas apreciavam Chaucer.
E tu continuaste. Havia razões
para recitar Chaucer. Seguiu-se uma divertida Mulher de Bath,
a tua personagem favorita de toda a literatura.
Estavas arrebatada. E as vacas fascinadas.
Empurravam-se e roçavam-se, faziam um círculo
para contemplar o teu rosto, dando alguns bramidos ocasionais
de exclamação, para avivar a sua assombrosa capacidade de [atenção,
de ouvidos à escuta para apanhar todas as inflexões,
à respeitosa distância de dois metros.
Tu simplesmente não conseguias acreditar.
E também não consegues parar. Que podia acontecer
se resolvesses parar? Seriam capazes de te atacar,
assustadas com o choque do silêncio, ou só porque queriam mais? -
E por isso tiveste de continuar. E continuaste -
vinte vacas ficaram contigo, hipnotizadas.
Como é que conseguiste parar? Não me lembro
de teres parado. Imagino que se foram embora cambaleando -
a revirar os olhos, como que atraídas pelo cheiro da erva.
Imagino que as devo ter enxotado. Mas
a tua interpretação de Chaucer em sustenido
já era eterna. Aquilo que se seguiu
encontrou a minha atenção demasiado ocupada
e teve de regressar ao esquecimento.

(in Cartas de Aniversário; trad. Manuel Dias)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Excerto de "O Medo (II)", de Al Berto

saúde periclitante, pensamentos periclitantes, café periclitante, cigarros periclitantes, tempo periclitante, trabalho periclitante...
abismos, paisagens inacessíveis. insónia. ideias sinistras ocorrem-me. à minha volta tomam forma pequenos objectos cortantes. precária eternidade de quem já abandonou o corpo.
os deuses deveriam predestinar-me outras tarefas, outros percursos: a mendicidade, o nomadismo, a cegueira, a transumância ou o ascetismo.
gostaria de ter nascido ave, pequena ave, flutuante pássaro marinho ou bicho subterrâneo, míldio ou peste, sarna das glicínias, feridas das tâmaras, ferrugem das roseiras, nuvem, sujidade. ah! como tenho sede doutras vidas, como desejaria o silêncio magnífico das oceânicas profundidades!

(excertos de "O Medo (II)", in O Medo)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

(Feliz Natal)

O poemapossivel
deseja
um Feliz Natal
a todos
os seus amigos e leitores...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

(Dias sem poesia)


Branka Parlic interpreta "Metamorphosis 2", de Philip Glass (Sinagoga de Novi Sad, 27.10.2004)

(...sucedem-se os dias sem poesia...).

sábado, 20 de dezembro de 2008

Versos de Herberto Helder

Tocaram-me na cabeça com um dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
É assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas

(in A Faca não Corta o Fogo)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

domingo, 14 de dezembro de 2008

"Os dentes de leão", de Jorge Sousa Braga

O poemapossivel dedica estes versos a cinco amigos
com quem é sempre um prazer e um privilégio conviver.


Os dentes de leão
adoram trincar
minúsculos grãos de pólen

(in Fogo sobre Fogo)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"À memória de Ruy Belo", de Eugénio de Andrade

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

1978
(in Epitáfios)