segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Mia Couto: recomendo muito

(Este fim de semana li um livro de Mia Couto - «Raiz de Orvalho e Outros Poemas». Ainda que diferentes dos poemas de um outro livro (mais recente) que já lera do autor, vários foram os versos que me conseguiram encantar; muitos transcrevi, qual anacrónico copista, num dos meus inúteis cadernos (anacronicamente manuscritos). Às vezes, neste livro, o autor escreveu o que eu, há quanto tempo, quero dizer - ou, mais ainda, escreveu o que eu queria ter entendido dentro de mim para poder, se não dizer, ao menos calar (mas calar em consciência).
Ler um livro de poemas é quase sempre um passatempo sereno, mesmo que invariavelmente inútil. Aprende-se a nossa língua, certamente (depreende-se, com sorte, o que sentimos); mas não se aprende a beleza, os bons sentimentos ou qualquer coisa que se possa parecer com a vida... Na vida, somos só nós - face à beleza, aos (bons ou maus) sentimentos, à vida; e cada um com sua espingarda - e não vou ao encontro das metáforas já de todos conhecidas. Li Mia Couto. Agora, pela lógica deste blogue - mas que lógica?, meu Deus, que lógica? - devia publicar um poema, ou somente um verso. Não: hoje, escrevo este parágrafo para me poder sentir culpado com mais razão - não publiquei sequer um verso, apesar de haver versos (oh!, tantos!), não foi possível o poema, mesmo havendo muitos para ler...).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

(Apesar de)

(A verdade é que, após uma hora de condução nocturna, e apesar de - ligado o computador - me resolver publicar uns versos do Francisco José Viegas, lidos há horas atrás, neste momento sinto que a Poesia não encerra em si mesma qualquer valor.
Talvez seja o cansaço a falar, admito; mas também é possível que o cansaço fale a clara linguagem da evidência.)

"Eu que não sei o que sou", de Francisco José Viegas

Tudo parece gasto, tudo: os corredores, as janelas,
mas sobretudo os nomes das coisas, a forma como
se organizam e se preparam para a morte,
o modo de tudo desaparecer. Um sentido
para as coisas, um sentido para dar às coisas.
Ter medo e saber, esquecer e querer esquecer.
Sento-me à noite na varanda onde o frio chega
primeiro e reparo que tudo parece gasto e sem sentido.

(in Se me comovesse o amor)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Uma edição fac-similada da «Mensagem» nas livrarias


"Saudade", de Al-Mu'tamid

breve será vencedora
a morte com tal paixão,
se não estancas coração
esta dor que me devora.

ausente minha senhora
mil cuidados me dão guerra.
não logro paz cá na terra.

e o sono, que invoco em vão,
com a sua doce mão
nunca as pálpebras me cerra.

(in Al-Mu'tamid. Poeta do Destino, trad. Adalberto Alves)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"Balões", de Sylvia Plath

Desde o Natal que eles têm vivido connosco,
Simples e transparentes,
Ovais animais com alma,
A ocupar metade do espaço,
Movendo-se e roçando-se nas sedosas

E etéreas correntes de ar,
A guinarem e a rebentarem
Quando atacados, depois fugindo a toda a pressa para uma calma [ainda tremente.
Serviola amarela, chúmbea azul -
Tais são as estranhas luas com que vivemos,

Não com mobília fúnebre!
Tapetes de corda, paredes brancas
E estes viajantes
Globos de ar fino, vermelhos, verdes,
A encantar

O coração como desejos ou os livres
Pavões que abençoam
O chão antigo com uma das suas penas
Embutida no fundo de peças de metal luzente.
O teu irmão

Mais pequeno faz
O balão dele guinchar como um gato.
Parece estar a ver
Através dele um divertido mundo cor-de-rosa que talvez possa [comer,
Morde,

Depois senta-se
De novo, pote gordo
A admirar um mundo transparente como a água.
Um resto de vermelho
Esfarrapado na sua mão pequena.

(in Ariel, trad. Maria Fernanda Borges)

* * *

(Este é, para mim, um dos mais perturbadores poemas de Ariel, talvez por me parecer demasiado ingénuo ou inocente para caber em tal brutal - e potencialmente autobiográfica - obra... «Um resto de vermelho / Esfarrapado na sua mão pequena.»)

domingo, 5 de outubro de 2008

Uma «brilhante prestação»

Rainer Maria Rilke, nas Cartas a um Jovem Poeta, aconselhava: «Não escreva poemas de amor; evite por ora as formas mais comuns e correntes: são elas as mais difíceis, pois só uma grande força, já amadurecida, conseguirá criar uma coisa própria por entre a abundância de boas e por vezes brilhantes prestações».

* * *

(Às vezes, tropeço em livros extraordinários. Acontecerá, por certo, com todas as pessoas - nuns casos, admito que possam ser outros os objectos desses contactos felizes. Desta vez, num mercado de livros em promoção, comprei o livro organizado, contextualizado e traduzido por Adalberto Alves - "Al-Mu'tamid. Poeta do Destino".
Porquê relembrar as palavras de Rilke? Porque ao ler alguns dos versos deste poeta peninsular do século XI senti - intensamente - estar perante alguns exemplares de "brilhantes prestações" no campo da poesia amorosa.
)

* * *

Separação

só eu sei quanto me dói a separação!
na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

à pena, no papel, escrever não é dado
sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
linhas de amor na página da face.

se o meu grande orgulho não obstasse
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
de visita às pétalas da rosa.

Al-Mu'tamid
(Al-Mu'tamid. Poeta do Destino, trad. Adalberto Alves)

(Contraditório)

(A opção pela poesia pode estar errada, mas mesmo admitindo que o esteja, isso não tem qualquer valor. Tudo é igual, já o escrevera.
Insisto neste blogue. Insisto porque insisto. Insisto também por amizade e por uma muito minha - inglória e à partida perdida - luta contra uma espécie de morte ou contra o embrutecimento. Insisto pelas palavras do Sebastião Alba. Insisto porque posso dizer «Fim» a qualquer momento, sem serem necessárias proclamações. Insisto mesmo que neste insistir se esconda um erro
).

sábado, 4 de outubro de 2008

(Para os meus amigos)


Glenn Gould intepretando a Ária das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

(Interregno ou fim?)

(Tantos os poemas, tantas as possibilidades... comecei, quase sem pensar, o poemapossivel: um espaço onde, de quando em quando, este leitor "anónimo" publicitava algumas das suas leituras, sem despender grande tempo ou energia... Um espaço mais, um espaço apenas, um espaço... Agora, o interregno (ou mesmo o fim). Tinha planeado publicar nos próximos dias alguns versos lidos recentemente: "Lendo o que escreves", de Francisco José Viegas, ou um perturbador poema da Sylvia Plath, cujo título agora me falha. Mas não o farei, agora (pelo menos) não... Levarei o cachorrito a passear noutro relvado - e, quem sabe?, talvez ele ache mais interessante outra coisa que não a poesia!... Não é preciso uma razão para um interregno (ou fim); às vezes acontece porque acontece, mesmo não tendo que acontecer, ou nada o fazendo prever. Consideremos: é tudo igual - e ainda que o não fosse, desta vez será).

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"Poesia é acto", de Remco Campert

Poesia é acto
de afirmação. Afirmo
que vivo e que não vivo só.

Poesia é futuro: pensar
na próxima semana, em outro país
e em ti mesmo quando velho.

Poesia é a minha respiração, empurra
meus pés às vezes hesitantes
sobre a terra que pede movimento.

Voltaire acometido de varíola
salvou-se ingerindo entre outras coisas
120 litros de limonada: isso é poesia.

Ou então a ressaca. Quebrada
nas rochas não se deixa derrotar,
refaz-se: e isso é poesia.

Cada palavra que se escreve
é um atentado contra a velhice.
Afinal a morte vence, isso é certo,

mas a morte é apenas silêncio na sala
depois de ressoar a última palavra.
A morte é emoção.
(in Uma Migalha na Saia do Universo. Antologia da poesia neerlandesa do século vinte, trad. Fernando Venâncio)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Eles", Richard Minne

Eles, as pessoas com dignidade
nesta vida, com chama interior,
andam aí dispersos sobre a terra
e trazem um chapéu inferior.

Caminham asseados, silenciosos,
rente às casas preferem deslizar
e escutam, se possível no Outuno,
os choupos todos a rumorejar.

Espaço não costumam ocupar
como o dourado nas folhas dum livro,
e se acaso o eléctrico vem cheio
o seu lugar é sempre no estribo.

Ontem levei uma pessoa dessas
à estação. Era uma noite assaz
brumosa e fria. O meu cansado amigo
tinha um bilhete de terceira classe.

(in Uma Migalha na Saia do Universo. Antologia da poesia neerlandesa do século vinte, trad. Fernando Venâncio)