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segunda-feira, 1 de julho de 2013

[escrevi um curto poema trémulo e severo], de Herberto Helder

escrevi um curto poema trémulo e severo,
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
- fundo, devastador, incompreensível -
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

quinta-feira, 27 de junho de 2013

[já não tenho mão com que escreva nem lâmpada], de Herberto Helder

já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio
                                                           que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 25 de junho de 2013

[um dia destes tenho o dia inteiro para morrer], de Herberto Helder

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas
                                                                         linhas

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 18 de junho de 2013

[não me amputaram as pernas nem condenaram à fôrca], de Herberto Helder

não me amputaram as pernas nem condenaram à fôrca,
não disseram de mim:
ele inventou a rosa,
contudo quando acordei a minha mão estava em brasa,
contudo escrevi o poema cada vez mais curto para chegar
                                                           mais depressa,
escrevi-o tão directo que não fosse entendido,
nem em baixo,
nem em cima,
nem no sítio do umbigo que se liga ao sangue impuro,
nem no sítio da boca onde se nomeia o sopro,
e ficou assim:
económico, íntimo, anónimo
ou:
chaga das unhas cravadas na carne irreparável

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

[como se atira o dardo com o corpo todo], de Herberto Helder

como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O primeiro poema do novo livro de Herberto Helder

dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida

(in Servidões; ed. Assírio & Alvim, 2013)

terça-feira, 11 de junho de 2013

"A identidade dos contrários", de Edouard Roditi

Sonho que sou louco, e na minha loucura
Sou mais sensato que num sonho
Ou acordado, com medo que me tenham por louco
Meus companheiros de sonho.

Meu bom senso é diária loucura,
Para um mundo em vigília que atribui
Mais vigília e atenção mais funda
À razão do que a razão possui.

Sonho é minha vida diária, cada dia
Simula e dissimula até loucura
E razão serem ambas semelhantes,
E eu ajo enquanto sonho.

No sonho, o bom senso e a loucura,
Na loucura, o sonho e o dia a dia
Ligados, entre si todos semelhantes:
Sonhando ou acordado, sou louco e sou sensato.

(in As magias; poema mudado para português por Herberto Helder; ed. Assírio & Alvim)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

"O Coração", de Stephen Crane

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração».

(in As magias; poema mudado para português por Herberto Helder; ed. Assírio & Alvim)

terça-feira, 4 de junho de 2013

Poema do povo Dinca (Sudão), mudado para português por Herberto Helder

 à memória do meu avô

No tempo em que Deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

(in As magias; poema mudado para português por Herberto Helder; ed. Assírio & Alvim)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

(A poesia é um vício caro - reprise)

(Um novo livro de Herberto Helder é indubitavelmente um acontecimento. A sua obra tem um papel de destaque na poesia portuguesa contemporânea, em parte - na minha modesta opinião - pela elevação e quase sacralização da poesia.
O poeta, com os seus 82 anos, tem publicado muito espaçadamente as suas últimas obras poéticas, impondo, a quem o publica, uma edição única com, por consequência, um número limitado de exemplares. Em 2008, com A Faca Não Corta o Fogo, os três mil exemplares impressos - sendo que em Portugal são raríssimas as edições de poesia a atingir o milhar - esgotaram em cerca de um mês (na altura falou-se que parte dos exemplares havia sido açambarcada por uns quantos alfarrabistas, em vista de maiores ganhos); este seu novo livro, Servidões, seguindo o mesmo modelo, foi anunciado em cima da data de lançamento e, numa pouco inocente e nada dissimulada estratégia de marketing, publicitado como passível de esgotar rapidamente - o que parece, de facto, destinado a acontecer.
Entretanto já pude ler na imprensa vários textos (noticias mas também recensões), e todos parecem passar ao lado de um aspeto - o preço (talvez por ser pouco literário falar destas coisas). O livro, com cerca de 130 páginas, custa vinte e dois euros. É certo que quase todos os livros de poesia são caros - comparados com os de outros géneros literários (frequentemente, livros de sessenta ou setenta páginas aparecem nas livrarias a dez euros) -, mas tenho que referir que o preço me parece algo exagerado. E aqui parece haver uma contradição (resta saber se com a conivência declarada do autor, ou somente com a sua tolerância ou indiferença), entre a pureza poética da escrita do autor e o caráter excessivamente mercantil (esta parcela da obra transforma-se num livro gritantemente preso à condição de produto, peça a ser vendida em busca do máximo lucro e/ou por vezes comprada como investimento a rentabilizar).
Seguramente que o livro não chegará a muitos dos potenciais leitores de Herberto Helder (talvez seja essa a sua vontade), muitos deles provavelmente com um interesse genuíno, sincero e - se se quiser - puro. O livro, que procurarei ler, poderá ser eventualmente estruturante no conjunto da obra, mas a contradição entre poesia e lucro mancha um pouco o acontecimento).

sexta-feira, 24 de maio de 2013

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Haiku de Issa Kobayashi

Caracol,
lento, lento, lento - sobe
o Fuji.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

domingo, 14 de novembro de 2010

Poema Zen

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

"Nascemos para o sono"

Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

(Poesia mexicana do ciclo Nauatle, in O Bebedor Nocturno; poema mudado para português por Herberto Helder)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dois versos do "Cântico dos Cânticos"

Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.

(in O Bebedor Nocturno; poema mudados para português por Herberto Helder)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Herberto Helder reeditado

Capa de livros de Herberto Helder (de poemas mudados para português) recentemente reeditado. A edição original data de 1968.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Finalizado o livro «Ou o Poema Contínuo», após muitos meses de leitura(s)

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)

sábado, 13 de junho de 2009

Mais alguns versos de Herberto Helder

Folha a folha como se constrói um pássaro
e entre si o ar e a árvore
se iluminam.
O pássaro canta, alguém escuta, as coisas juntam-se
em desequilíbrio
no grande buraco luminoso para cima.
E o canto continua tudo entre árvore e ar
com a luz desarrumada folha a folha.
E cada coisa regressa de si mesma.
No papel onde se levanta o mundo numa baforada desde as unhas
ao braço e à cara e à boca no som apenas
de pedaços de palavras,
a assimetria dos dedos nos vocabulários que faíscam, uma
soletração pouca.
O canto inteiro escrito arterialmente perto,
coluna de sangue e ar,
canto pequeno.

(in Ou o Poema Contínuo; "Do Mundo", IV)