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quinta-feira, 25 de junho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um poema de Casimiro de Brito, que versa o morrer de amor e desamor

Esta manhã não lavei os olhos -
pensei em ti.

*

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

*

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

*

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.

(in Arte de Bem Morrer)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Cegas, as palavras, para Casimiro de Brito

Cegas são as palavras embora
seu vagaroso ruído ilumine
a sombra do barro que no corpo
arrefece. Sílabas difusas
do rouco encantamento
onde me confundo como se outro
coração mais fundo não houvesse.

(in Arte de Bem Morrer)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Versos de Casimiro de Brito

Contaminado pelo barro da vida
que já se afasta, corrompida,
basta-me este canto rouco. Anunciador
da madrugada? Mas onde estou eu, sem chão
nem jangada? Comido pela boca nocturna
só me restam umas sílabas escuras.
Com elas não sei o que fazer. A arte
da queda? Deixa acontecer.

(in Arte de Bem Morrer)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Casimiro de Brito sentado numa rocha

Sentado nesta rocha e quase
tão paciente como ela
pergunto-me se os nossos pensamentos
serão diferentes. É certo que tenho ouvidos
e ela não, olfacto
e ela não - mas que sei eu das suas
sensações? Que direi do pó incansável
que em mim canta e balança e se afasta
para outro lugar? Saberá ela
que sou um homem quase acabado? Eu,
o que sei dela? Há um sol
que se levanta e vagas e brisas salgadas
que se transformam em espuma -
há uma sombra num país distante
que a todos espera - é o que temos
em comum. Inclino-me sob o vento para defender
a minha natureza. Ela também. A rocha
saberá o calendário?

(in Arte de Bem Morrer)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Ainda um poema do «Livro das Quedas», de Casimiro de Brito

Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

(in Livro das Quedas)

quinta-feira, 12 de março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mais versos de Casimiro de Brito

(Hoje que faz sol, deliciou-me este poema de chuva... Reparo agora que o poema publicado anteriormente, há poucas horas apenas, também fala de chuva...).

A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração.

(in Livro das Quedas)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Novo poema do "Livro das Quedas", de Casimiro de Brito

Sentado na sua casa branca
onde não acontece nada
um homem pergunta ao sol:
Se a morte não existe,
se tudo é canto e glória,
se no sal repousa a vertigem,
onde se acumula o pó?

(in Livro das Quedas)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Versos de Casimiro de Brito

O ardor que transmito
ao limão da palavra
inebria-me, vou
continuar, vou devolver às palavras
algum som algum sal embora saiba
que esta vertigem
é precária. Posso defender-me
(de quê?) dizendo
que só o precário merece
um pouco de exaltação. Talvez ande
por aqui
algum sangue, algum indício
de respiração.

(in Livro das Quedas)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

("desmoronar-se a sílica do coração")

à minha avó Ção (1919-2009)
à minha avó'Rora (1921-2009)

Um homem
vai no seu corpo
e subitamente
cai. Ouço
desmoronar-se
a sílica do coração.
E ouço também
a terra e o ar
acolherem os ossos
do filho pródigo.
Em si este acontecimento
não é nada original
mas dói. O vento
do Outono
morde-me os ossos
e dói.

Casimiro de Brito
(in Livro das Quedas)