Cegas são as palavras embora seu vagaroso ruído ilumine a sombra do barro que no corpo arrefece. Sílabas difusas do rouco encantamento onde me confundo como se outro coração mais fundo não houvesse.
Contaminado pelo barro da vida que já se afasta, corrompida, basta-me este canto rouco. Anunciador da madrugada? Mas onde estou eu, sem chão nem jangada? Comido pela boca nocturna só me restam umas sílabas escuras. Com elas não sei o que fazer. A arte da queda? Deixa acontecer.
Sentado nesta rocha e quase tão paciente como ela pergunto-me se os nossos pensamentos serão diferentes. É certo que tenho ouvidos e ela não, olfacto e ela não - mas que sei eu das suas sensações? Que direi do pó incansável que em mim canta e balança e se afasta para outro lugar? Saberá ela que sou um homem quase acabado? Eu, o que sei dela? Há um sol que se levanta e vagas e brisas salgadas que se transformam em espuma - há uma sombra num país distante que a todos espera - é o que temos em comum. Inclino-me sob o vento para defender a minha natureza. Ela também. A rocha saberá o calendário?
Se o mundo não tivesse palavras a palavra do mar, com toda a sua paixão, bastava. Não lhe falta nada: nem o enigma nem a obsessão. Entregue ao seu ofício de grande hospitaleiro o mar é um animal que se refaz em cada momento. O amor também. Um mar de poucas palavras.
(Hoje que faz sol, deliciou-me este poema de chuva... Reparo agora que o poema publicado anteriormente, há poucas horas apenas, também fala de chuva...).
A chuva pede que me cale ou convida-me a cantar? Ainda não entendi, vou escutar com mais atenção, vou encostar ao búzio delicado da chuva o ouvido poluído do coração.
Sentado na sua casa branca onde não acontece nada um homem pergunta ao sol: Se a morte não existe, se tudo é canto e glória, se no sal repousa a vertigem, onde se acumula o pó?
O ardor que transmito ao limão da palavra inebria-me, vou continuar, vou devolver às palavras algum som algum sal embora saiba que esta vertigem é precária. Posso defender-me (de quê?) dizendo que só o precário merece um pouco de exaltação. Talvez ande por aqui algum sangue, algum indício de respiração.
à minha avó Ção (1919-2009) à minha avó'Rora (1921-2009)
Um homem vai no seu corpo e subitamente cai. Ouço desmoronar-se a sílica do coração. E ouço também a terra e o ar acolherem os ossos do filho pródigo. Em si este acontecimento não é nada original mas dói. O vento do Outono morde-me os ossos e dói.